14 de junho de 2009

Joheved - Opinião


Mal pousei este livro e fiquei logo com vontade de ler o que se lhe sucede. Há algum tempo que não me acontecia isto: ler um livro e ser-me difícil de o largar. Mas vamos por partes.

Joheved é o primeiro livro de uma trilogia chamada As Filhas de Rashi. Conta a história da família de Salomon ben Isaac, um estudioso do Talmude na França Medieval, mais propriamente no século XI. Vive em Troyes e, como não tem filhos, começa a ensinar, secretamente, o Talmude às suas duas filhas: Joheved e Miriam. Salomon possui também uma vinha, que é o que providencia o sustento da família e, por isso, divide-se entre a produção de vinho e o estudo do Talmude, assim como acontece com as suas filhas.
Somos então levados aos eventos da vida quotidiana de uma família judaica e ao papel que cada um tem nas várias celebrações religiosas que se desenrolam ao longo da história. Podemos ver mais de perto todos esses rituais, o seu significado e a importância que têm na vida de todos e de cada um, já que o Judaísmo é indissociável das suas vidas. Para mim, foi isto que me interessou mais porque gosto sempre de saber mais sobre culturas, religiões, estilos de vida e sociedades que sejam diferentes da minha e a religião judaica era uma delas.
Ao longo do livro somos também confrontados com algumas passagens do Talmude e com as discussões subsequentes por parte de quem a aprende e ensina, já que Salomon funda uma yeshiva (academia talmúdica) em Troyes, para que possa ensinar outros comerciantes que ali se encontram, assim como filhos e netos de outras figuras da cidade.
Contudo, Joheved, cujo espírito desperta para a aprendizagem deste complemento da Torah, vê-se confrontada com o casamento com Meir ben Samuel, um discípulo de Salomon. O problema principal e as suas grandes dúvidas eram se Meir aceitaria bem o facto de ter uma mulher que sabia, provavelmente, tanto como ele a respeito do Talmude. E, mesmo que o aceitasse, se a deixaria continuar os seus estudos, mesmo enquanto casada, já que o estudo do Talmude era vedado às mulheres.
Para além disso, a história tem os seus momentos de humor, principalmente de Miriam e dos discípulos de Salomon e achei curioso todas as susperstições e acontecimentos que seriam ligados aos demónios. No que toca ao Judaísmo, acho que muitas pessoas ficarão surpresas com alguns ensinamentos e crenças que eles têm. Eu, pelo menos, fiquei.

Achei este livro fascinante e gostei particularmente do facto de que as palavras e expressões de origem judaica, assim como os nomes dos rituais, não foram traduzidos para português, originando um pequeno glossário no fim do livro. Assim, temos expressões como mazikim (espírito maléfico), shiva (sete dias de luto após a morte de um familiar) Rosh Hashanah (o ano novo judaico), chacham (mestre judeu) entre tantas outras.
Outra coisa interessante é que este livro é um romance histórico e, como tal, existem personagens verídicas e ficcionais. A autora escreve um posfácio relatando as que são o quê mas, informo que Salomon, assim como as suas filhas e o marido de Joheved foram pessoas reais e Salomon foi a primeira pessoa a redigir um comentário ao Talmude. São descritos também eventos históricos mais que documentados como a reforma religiosa do Papa Gregório, a fome de 1030-1033 em França e o inverno bastante rigoroso que foi o de 1076-1077.

Para concluir: achei este livro excelente, estou ansiosa para comprar o seguinte, Miriam, e saber os eventos que se vão desenrolar. Porque este foi um livro difícil de pousar, mesmo quando o sono apertava à noite e, quando finalmente o terminei, fiquei com uma enorme vontade de rever estas personagens, principalmente Joheved e o seu marido, porque me apeguei imenso à sua história.

4 comentários:

WhiteLady3 disse...

Também sei pouco sobre tradições judaicas, mas fiquei curiosa após ter lido o Daniel Deronda ainda que este livro focasse sobretudo o movimento para a criação de um estado israelita.

Obrigada pela crítica. Este será a um livro a ler. ;)

Mariane disse...

Tem um selinho pra vc no Compartilhando Leituras...

BJS

La Sorcière disse...

Li tantos livros de Noah Gordon que me sinto à vontade no universo de tradições judias! Fiquei muito interessada neste livro. Seu comentário é ótimo!

Diana disse...

Obrigado, La Sorcière!
Nunca ouvi falar desse autor, mas vou investigar. Fiquei mesmo muito interessada na cultura e tradições judaicas. :)