9 de dezembro de 2019

Persépolis - Opinião

Título: Persépolis
Autora.: Marjane Satrapi
Editora: Contraponto
Páginas: 352
Sinopse:
"Com uma memória inteligente, divertida e comovente de uma rapariga que cresce no Irão durante a Revolução Islâmica, Marjane Satrapi consegue transmitir uma mensagem universal de liberdade e tolerância.

Estamos em 1979 e, no Irão, sopram os ventos de mudança. O Xá foi deposto, mas a Revolução foi desviada do seu objetivo secular pelo Ayatollah e os seus mercenários fundamentalistas. Marjane Satrapi é uma criança de dez anos irreverente e rebelde, filha de um casal de classe alta e convicções marxistas. Vive em Teerão e, apesar de conhecer bem o materialismo dialético, ter um fetiche por Che Guevara e acreditar que consegue falar diretamente com Deus, é uma criança como qualquer outra, mergulhada em circunstâncias extraordinárias."

Opinião:

Tinha grandes expectativas em relação a este livro e tinha quase a certeza de que ia gostar. Só não sabia que ia gostar tanto! Este livro é uma autobiografia de Marjane Satrapi que, sendo ilustradora, conta a sua história desde a infância até à idade adulta através desta novela gráfica que sabe tão bem. Através dela ficamos a conhecer melhor a história do Irão desde a Revolução Islâmica no fim dos anos 70 até meados dos anos 90, com todas as mudanças políticas, sociais e culturais que têm lugar tanto no Irão como na Europa.

Gostei muito deste livro por me abrir horizontes sobre uma história e uma cultura que desconheço quase por completo, que é o mundo da antiga Pérsia. Com esta leitura fiquei a querer saber mais sobre a história daquela região, daqueles povos, porque a leitura serve também para isto: para  aprofundarmos o nosso conhecimento e desconstruir pré-concepções que temos em relação a certos temas. 

Considero que esta foi a leitura mais rica que fiz este ano por me dar a conhecer um contexto, um país e uma cultura sobre a qual não sabia praticamente nada, para além de ser uma excelente autobiografia com a sua dose de humor, que nos apresenta dores de crescimento, de auto-conhecimento. É a história de uma rapariga que nasce e cresce no seio de uma família liberal que lhe oferece todas as hipóteses e mais algumas para poder pensar por ela própria, e que tem de sobreviver num regime que se torna ditatorial e opressivo. Há momentos trágicos, caricatos, divertidos e tristes, que delineiam a história de Marjane que acaba por se mesclar com a história do seu próprio país.

Adorei este livro por tudo: pela história de Marjane em si, pela parte visual do livro que está muito bem conseguida, pelo humor inteligente que a autora consegue incutir em alguns momentos - que às tantas não sabemos se havemos de chorar ou de rir - e pela curiosidade que me deixou em saber mais sobre a cultura persa, árabe e islâmica.

Por tudo isto, sinto que, até agora, foi a melhor leitura que fiz este ano.

6/6 - Excelente

3 de dezembro de 2019

Olive, Again - Opinião

Título: Olive, Again
Autor: Elizabeth Strout
Lido no Kobo
Sinopse:
"The iconic Olive struggles to understand not only herself and her own life but also the lives of those around her in the town of Crosby, Maine. Whether with a teenager coming to terms with the loss of her father, a young woman about to give birth during a hilariously inopportune moment, a nurse who confesses a secret high school crush, or a lawyer who struggles with an inheritance she does not want to accept, the unforgettable Olive will continue to startle us, to move us, and to inspire moments of transcendent grace."

Opinião:

Quase que me atrevo a dizer que me estou a aproximar do meu ritmo de leitura mais normal, após ter terminado este livro em duas semanas! Se eu conseguisse ler dois livros por mês era espectacular, mas como eu já me conheço é melhor ter calma.

Bom, parti para esta leitura em busca de uma história mais leve e em modo "não-calhamaço". Este livro de Elizabeth Strout conta-nos a história de Olive Kitteridge, senhora do seu nariz, independente, de opiniões e personalidade fortes, à medida que vai envelhecendo. E apesar de Olive ser o fio condutor deste livro, a verdade é que se pode dizer que este livro é constituído por vários pequenos contos que nos narram as histórias das pessoas que vivem na pequena cidade fictícia de Crosby, no Maine. E embora as personagens não se relacionem entre si, contam a história maior da vida em Crosby.

É, de facto, um livro leve e fácil de se ler, mas as temáticas que aborda são profundas se lerem com atenção: crescimento, envelhecimento, empatia, autenticidade e, aquele que é o grande tema para mim, a solidão. A solidão de se estar sozinho no mundo e com gente que não nos vê. A solidão dos traumas, a solidão do vazio, da incompreensão, a solidão da velhice, da doença, da perda, mas também a solidão daqueles que sorriem, que têm vidas preenchidas, que têm famílias e que ninguém sabe o que lhes vai na alma.

Gostei do livro, mas estava à espera de outra coisa. Estava à espera de uma obra centrada na vida de Olive e não foi isso que aconteceu. Claro que o maior enfoque é ela, mas o livro pareceu-me mais uma colecção de histórias sobre a vida daquelas pessoas do que um livro sobre Olive Kitteridge. A narrativa está bem construída, lê-se bem e de forma fluída, sem confusões por estarmos a saltar de umas histórias para as outras, mas soube-me a pouco. Ia com outras expectativas que acabaram por não se confirmar, ainda que tenha apreciado a leitura deste livro.

4/6 - Bom

26 de novembro de 2019

Radar Literário

Chega o final do mês e venho mostra-vos que livros tenho debaixo de olho. Desde que criei a conta de instagram do blog que tenho alargado ainda mais os meus horizontes literários porque vejo tanta gente ler tantas coisas diferentes, mas também tanta gente a ler os mesmos livros e a construírem críticas fundamentadas tão boas. Por isso, vamos lá aos livros que me despertaram interesse durante o mês de Novembro. Confesso que este mês há um grande pendor para a fantasia. Se já leram algum destes livros, comentem e digam-me se gostaram ou não!


Ninth House, de Leigh Bardugo
Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho
The Ten Thousand Doors of January, de Alix E. Harrow


The Starless Sea, de Erin Morgenstern
O Luto de Elias Gro, de João Tordo
The Bone Houses, de Emily Lloyd-Jones

Se calhar peço alguns ao pai natal, ou aproveito as promoções da Black Friday!

19 de novembro de 2019

Ideias de prendas natalícias... literárias!

Chega a época natalícia, chega a altura de dar e, esperemos nós, de receber livros! Lá vamos nós pelas livrarias em busca do livro perfeito para aquela pessoa, ao mesmo tempo que tentamos resistir à tentação de comprar metade da livraria para nós próprios. Por isso, achei que vos podia deixar aqui algumas sugestões de livros que podem oferecer à vossa família e amigos de acordo com aquilo que eles gostam ou, quem sabe, para os fazerem sair da sua zona de conforto. Baseei-me somente nos livros que li, porque foi o que me fez sentido - não vou recomendar livros que ainda não li - e tentei ser o mais diversificada possível tendo em conta o que já li e gostei.

Ficção contemporânea


Stoner é um dos livros da minha vida. Ao início não damos nada por ele, mas chegamos ao fim arrebatados pela história narrada, pela dimensão e pelo peso que as coisas mais mundanas podem ter na vida de uma pessoa. Penso que este livro terá impacto em qualquer pessoa, afinal, é impossível ficar-lhe indiferente.

Onde estás, Bernadette? é uma leitura mais leve, uma lufada de ar fresco que, ainda assim, nos entretém com uma boa história. A história é contada de forma epistolar sobre uma mulher, Bernadette, que desaparece misteriosamente durante os preparativos para uma viagem com o marido e com a filha. Este livro foi, inclusivamente, alvo de uma adaptação cinematográfica este ano com Cate Blanchett no papel de Bernadette.

As Memórias de uma Gueixa é um livro inesquecível. Para quem gosta da história e da cultura japonesa do início do século XX, para quem tem curiosidade sobre o modo de vida das gueixas, com uma personagem feminina forte que enfrenta momentos tão difíceis e trágicos, mas que consegue vencer todas as adversidades. É uma história com uma prosa muito bonita, que nos leva a cenários longínquos e que nos envolve na história de Sayuri.

Ficção Histórica


A Invenção das Asas passa-se no século XIX, no estado da Carolina do Sul e conta-nos a história de Sarah Grimké, uma das primeiras mulheres americanas a lutar pela abolição da escravatura e pelos direitos das mulheres. Neste livros entrelaçam-se as histórias de Grimké e de Hetty, uma escrava com a mesma idade de Grimké, onde ambas crescem juntas e se deparam com tudo aquilo que as separa uma da outra, apesar de haver tanta coisa que as une também. Para quem gosta deste tipo de narrativas, este livro é excelente.

A Sombra do Vento quase que se tornou um clássico contemporâneo da literatura pelo ambiente que cria, pelas personagens que nos apresenta e pela narrativa envolvente que, após tantos anos, faz com que eu não me esqueça dele. A história passa-se em Barcelona, durante a primeira metade do século XX e leva-nos numa trama de mistério e suspense que nos faz ficar agarrados ao livro até à última página!

O Rei de Ferro de Maurice Druon passa-se em França, no século XIII, durante o reinado do rei Filipe, o Belo, mais conhecido por ter sido o rei que transferiu o papado para Avinhão e por ter suprimido a Ordem dos Cavaleiros Templários. Este é o primeiro de sete livros que contam, precisamente, a história deste período e das principais figuras que marcaram a história de França. George R. R. Martin cita Druon e estes livros, em particular, como uma das fontes de inspiração para a narrativa  sobre a intriga política e lutas de poder presentes n'As Crónicas de Gelo e Fogo. Se tudo isto vos chamou a atenção, atirem-se!

Romance


E agora para histórias de amor que não são lamechas, nem perfeitas, nem caem em clichés literários, tentei escolher três de que gosto bastante e que eu própria ofereceria sem pensar duas vezes.

Crónica de Paixões e Caprichos, da Julia Quinn é um must para quem gosta de romances históricos! Passa-se em Inglaterra, na altura da Regência e neste livro, tal como nos outros que se lhe seguem, Julia Quinn conta-nos a história da família Bridgerton, em particular dos sete filhos que a compõem e nas suas sagas românticas, que têm tanto de romance como de comédia de costumes.

Outlander... Quem nunca ouviu falar, nem que seja, da série de televisão?! Este é o primeiro livro, mas não se assustem com o calhamaço que é. Lê-se muito bem e leva-nos para a Escócia da primeira metade do século XX e para o século XVIII. Por esta ordem de acontecimentos. Sim, há viagem no tempo, há ficção histórica, há momentos mais bem humorados, outros muito sofridos e chocantes, e um amor que sobrevive ao teste do tempo. Será difícil não se sentirem arrebatados.

E falando em Escócia, este Nove Mil Dias e Uma Só Noite é-nos contado em forma de cartas, tratando-se da correspondência entre uma mulher escritora na ilha de Skye, na Escócia, e de um admirador seu, nos Estados Unidos durante o período da Grande Guerra. Mas depois passamos à Segunda Guerra Mundial e temos mais romance e mais mistério. É, sem sobra de dúvida, um livro com o tema do amor em tempos de guerra, que nos emociona e nos deixa levar pelas vidas daquelas personagens.


Young Adult


Para os mais novos, não posso deixar de recomendar a saga Harry Potter. Se estão na dúvida sobre a partir de que idade podem começar a ler esta saga, penso que a partir dos 10/11 anos, uma vez que é essa a idade dos protagonistas também, aquando do primeiro volume. E para além de todos os elementos de fantasia e aventura que estes livros têm, o que me faz recomendar-los é o facto de permitir que os leitores cresçam com as personagens também e os dramas, as inseguranças, as aspirações dos protagonistas podem, facilmente, responder às mesmas inquietudes de quem lê, permitindo também haver um sentido de pertença.

Ainda dentro da fantasia, este A Estranha Vida de Nobody Owens, de Neil Gaiman, acompanha a vida de Nobody Owens que vive num cemitério com todos os espíritos e criaturas que lá habitam. No entanto, todos estes "fantasmas" não são assustadores. São, antes, figuras quase familiares e parentais para Owens, são aqueles que o criam, protegem e ensinam. É um livro delicioso e altamente recomendado a miúdos e graúdos.

Já este A Culpa é das Estrelas, deixem-me que vos diga: quando o li não estava nada, NADA, à espera de me emocionar tanto com esta história e com os seus protagonistas. Relata a história de dois adolescentes, da descoberta do amor, da importância da amizade, do confronto com a morte numa narrativa muito bem conseguida por John Green e que também foi adaptada para o cinema.

Fantasia



Bom, nesta categoria ficava aqui o dia todo e nunca mais acabava esta lista... Por isso, decidi ficar-me pelos livros de fantasia que mais tiveram impacto em mim, recentemente.

Quem me conhece e quem visita este blog há algum tempo já percebeu que sou fã acérrima de Brandon Sanderson e de tudo o que ele escreve. E podia estar a recomendar aqui toda a obra dele, mesmo aquela que eu ainda não li, mas cinjo-me à sua trilogia já publicada por cá, que começa com este Império Final. Se querem um bom livro de fantasia com um sistema de magia original, personagens cativantes, aventuras e intrigas, este é o livro e a saga certa. Para fãs já muito batidos em obras de fantasia, mas também para os menos versados, acho que vai agradar a todos.

Não podia deixar de recomendar uma obra como As Brumas de Avalon, que reconta a lenda arturiana sob uma perspectiva feminina, tendo como foco as mulheres que, com o seu poder, dão forma aos acontecimentos na corte de Camelot. Este livro acaba por misturar vários elementos muito bem: mulheres fortes, magia, misticismo celta, lenda arturiana, acrescentando mais uma visão sobre esta lenda intemporal.

Por fim, a trilogia das Jóias Negras de Anne Bishop. Acho que foram estes livros que me iniciaram no reino da fantasia e até hoje são dos meus livros de fantasia favoritos. Este é o primeiro livro, Filha do Sangue e serve de introdução a todo aquele mundo peculiar e fantástico e às personagens que nunca mais vos vão largar: Daemon, Lucivar, Saetan e Jaenelle são algumas delas. Eu própria quero comprar e reler estes livros, porque na altura li-os emprestados. Recomendo vivamente a qualquer fã de fantasia!


Ficção Científica


Já no campo da ficção científica temos, maioritariamente, clássicos.

Este Duna de Frank Herbert é um livro denso que não se lê de uma assentada. É bastante imersivo,  com a construção de um mundo bastante rico e complexo, tem muitas considerações de nível espiritual, político, ambiental, filosófico, mas que vale muito bem o tempo que se demora a lê-lo. É uma obra incontornável para todos os fãs de ficção científica

Órix e Crex é uma obra de ficção especulativa de Margaret Atwood. Numa altura em que todos lêem ou relêem A História de uma Serva, por culpa da série, mas também da sequela publicada pela autora, The Testaments, achei por bem lembrar que Atwood escreveu outras coisas de forma brilhante também. E este é um desses casos. Não vos consigo explicar o amor que tenho por este livro, mas é de se tirar o fôlego a qualquer um que o leia.

Um Cântico a Leibowitz põe-nos a pensar sobre a natureza cíclica da história e o quanto o homem caminha para a sua auto-destruição. Fala-nos da importância do conhecimento, da preservação da história, daquilo que veio antes de nós, dos avanços tecnológicos e da importância que tem a religião na cultura de uma civilização. É assustador verificar que um livro escrito em 1959 permanece tão actual.


Mistério/Crime



Podia destacar aqui qualquer livro que li da Agatha Christie (e tenho a certeza que podia aqui mencionar os que não li também), mas escolhi este O Assassinato de Roger Ackroyd porque foi o primeiro livro que li dela e porque achei um livro tão cativante e delicioso que não podia deixar de estar aqui.

Toda a gente conhece o espectacular e best-seller Em Parte Incerta. Eu própria o adorei, mas antes desse, a autora escreveu este Objectos Cortantes que é tão, ou mais, perturbador e chocante do que o outro. Foi adaptado para série de televisão também, brilhantemente interpretado pela Amy Adams, e aconselho vivamente a todos os que gostem de thrillers densos e protagonistas que lutam contra os seus próprio demónios.

Já este Rebecca é uma história com elementos e temáticas reminescente dos romances góticos, nomeadamente de Jane Eyre. É um livro com bastante densidade psicológica, com uma mansão inglesa tão misteriosa como as personagens que lá vivem, e com segredos que se vão revelando por camadas até se chegar ao cerne da questão. Não posso deixar de recomendar este livro pela história em si, mas também pelo ambiente, pela envolvência e pela escrita de Du Maurier. Vale muito a pena.

15 de novembro de 2019

Dark Fire - Opinião

Título: Dark Fire
Autor: C. J. Sansom
Editora: PanMacmillan
Páginas: 608
Sinopse:
"Summer, 1540. Matthew Shardlake, believing himself out of favour with Thomas Cromwell, is busy trying to maintain his legal practice and keep a low profile. But his involvement with a murder case, defending a girl accused of brutally murdering her young cousin, brings him once again into contact with the King's chief minister - and a new assignment...

The secret of Greek Fire, the legendary substance with which the Byzantines destroyed the Arab navies, has been lost for centuries. Now an official of the Court of Augmentations has discovered the formula in the library of a dissolved London monastery. When Shardlake is sent to recover it, he finds the official and his alchemist brother brutally murdered - the formula has disappeared. Now Shardlake must follow the trail of Greek Fire across Tudor London, while trying at the same time to prove his young client's innocence. But very soon he discovered nothing is as it seems..."

Opinião:

Três anos depois da narrativa passada no primeiro livro Dissolution, voltamos à companhia do advogado Matthew Shardlake que tenta desvendar dois crimes: o primeiro diz respeito ao homicídio de um rapaz, supostamente, cometido pela sua prima Elizabeth; e o segundo tem a ver com o brutal assassinato dos irmãos Gristwood que descobriram uma substância potencialmente perigosa, mas que faria Cromwell cair nas boas graças do rei, chamada "Greek Fire". De facto, mais uma vez Cromwell contrata os serviços de Shardlake para descobrir não só o que aconteceu, mas também para encontrar a fórmula desaparecida que permite a produção desse material estranho para seu uso numa potencial arma incendiária. E, se no primeiro livro Cromwell está no auge do seu poder durante o reinado de Henrique VIII, neste livro a coisa já não é bem assim, e Cromwell tenta a todo o custo conservar a sua posição enquanto conselheiro do rei que se deteriorou depois deste ter arranjado o casamento do rei com a sua quarta mulher, Anne de Cleves - casamento esse que durou cerca de seis meses.

Assim, temos uma mistura de investigação criminal com ficção histórica, combinação essa de que gosto muito e Sansom faz maravilhosamente bem. Os passos dados na investigação de ambos os crimes acabam por se mesclar com as intrigas e lutas de poder entre Cromwell e o Duque de Norfolk, pai da futura esposa do rei, Catherine Howard, entre católicos e protestantes, adensando toda a trama que se vai desenvolvendo e colocando Shardlake em perigo. Gostei muito de reencontrar Matthew e a Inglaterra Tudor e de conhecer o seu novo companheiro Barak, designado por Cromwell para ajudar Matthew. São ambos homens muito diferentes, mas que acabam por se complementar bastante bem, afinal Matthew é um homem mais dado a processos mentais, sendo advogado, e Barak é um homem de acção, mais habituado à violência e a actos considerados menos nobres. 

O que melhor me soube neste livro, para além das personagens e da própria investigação em si, foi todo o ambiente criado pelo autor que nos oferece uma visão realista sobre aquele período, tanto nas esferas mais elevadas, como nas baixas, visitando tabernas, bordéis, prisões e andando pelas ruas de Londres pejadas de habitantes de todos os tipos. Quanto aos principais enredos de crime, confesso que não estava à espera do desenlace final. Sansom conseguiu construir uma trama de conspiração, alquimia e segredos de estado que levam Shardlake e Barak a percorrer as ruas de Londres durante um período de cerca de 15 dias, levando o leitor consigo na sua demanda, mas sem nunca adivinhando onde tudo irá parar.

Gostei bastante deste livro e de voltar ao período Tudor na companhia de Matthew Shardlake. Não posso deixar de aconselhar esta obra a quem gosta de um bom livro de ficção histórica com um enredo "policial" à mistura.

5/6 - Muito Bom

12 de novembro de 2019

Um Mapa Múndi das minhas leituras

Às vezes dou por mim a pensar que gostava de diversificar mais as minhas leituras - tanto em relação ao género e nacionalidades dos autores que leio, quer no que diz respeito ao cenário das próprias narrativas em si. Tenho plena noção de que o meu universo de leitura é o anglo-saxónico, mas gostava de mudar isso para poder ouvir/ler outras vozes, conhecer outras realidades, culturas e olhares.

Por isso, lembrei-me de fazer um Mapa Mundi e assinalar nele os locais por onde já passei! As pintas cor-de-rosa são os países que visitei através dos livros, mas não reflectem a nacionalidade dos autores.


Agora vamos a números e estatísticas para a coisa ter ainda mais peso e para perceber, de facto, o quão pouco diversas tendem a ser a maioria das nossas leituras. Em primeiro lugar, aqui fica uma (pequena) lista do número de livros que li cujas narrativas se passam nos países assinalados em cima. Quando se tratam de trilogias ou sagas, contabilizei apenas como 1.

EUA e Canadá - 29
Reino Unido - 41
Portugal - 16
Resto da Europa - 28
América do Sul - 7
África - 6
Ásia - 8
Austrália e Nova Zelândia - 1

Agora vamos às nacionalidades dos autores. Aqui já incluí autores de Fantasia, que não incluí na lista anterior por razões óbvias:

EUA e Canadá - 76
Reino Unido - 31
Portugal - 13
Resto da Europa - 24
América do Sul - 11
África - 4
Ásia - 3
Austrália e Nova Zelândia - 6

O que é que se conclui daqui? Algumas coisas. A saber:

- Há, claramente, um fascínio com o Reino Unido e com a Europa, uma vez que estes são os cenários preferidos pelos autores, mesmo que não sejam naturais desses países. Há americanos a escrever sobre o Japão e australianos a escrever sobre o Reino Unido, por exemplo. 
- Leio muito mais autores norte-americanos do que de qualquer outra nacionalidade. Isto não é propriamente novidade, mas não pensei que os números fossem estes! De facto o mercado em língua inglesa é muito maior e, por consequência, a oferta também o é e, por isso, as minhas leituras tendem a pender para autores desta nacionalidade.
- Só li um livro passado na Austrália. UM!!


O facto é que quando escolho um livro, escolho-o pelo tema, pela história em si, e não propriamente pela nacionalidade do autor. Isto só se torna relevante se queremos dar oportunidade a que outras vozes e realidades cheguem até nós e se queremos fazer um esforço consciente de ler para lá da nossa zona de conforto. E isto é algo em que gostava de apostar: ler livros passados no continente africano e na América do Sul, na Rússia, no Médio Oriente, no sudeste asiático... Queria ainda, sem dúvida nenhuma, ler mais autores portugueses ou de língua portuguesa. Afinal, devo conhecer o que se faz por cá também.

É curioso fazer este tipo de "descobertas" nas nossas leituras para perceber as nossas escolhas e se queremos mudar hábitos de leitura ou não. Eu quero! Quero ler outros autores e sobre outros países. Sair da minha zona de conforto e conhecer mais.

E vocês, têm noção dos locais que visitam com os vossos livros?

5 de novembro de 2019

Como organizo as minhas leituras

Quer leiam muito ou pouco, quer tenham uma lista de 10 ou 100 livros por ler, manter um esquema de organização é importante para saber a quantas andam. Eu gosto de registar as minhas leituras para saber o que li, quando li e o que achei desse livro, mas também preciso de registar os livros que quero ler e que já tenho e aqueles que quero comprar. No meio desta salganhada toda, e para não perdermos o controle da coisa, ajuda a perceber o que funciona melhor para cada um de nós e que tipo de sistema se adequa melhor às nossas necessidades - se o digital ou analógico. Ou ambos! Por isso, venho aqui mostrar o que funciona para mim e, quem sabe, ajudar-vos na vossa organização também.

Formato Digital



  • Plataformas digitais | Aplicações



A plataforma que é, provavelmente, a mais conhecida dos leitores é, sem dúvida, o Goodreads. Aqui vocês podem organizar as vossas leituras de acordo com género, ano de leitura, se leram em formato digital ou em papel, em português, inglês ou noutra língua, adicionar os livros que querem ler, enfim... as combinações são quase infinitas e podem adequá-las àquilo que vos serve melhor. Eu uso o Goodreads há 10 anos e é a plataforma mais completa e útil que conheço no que toca à organização de livros. Podem acrescentar também a vossa opinião quando acabam de ler o livro, actualizar em que ponto do livro estão e classificá-lo no fim, com um sistema de estrelas que vão de 1 a 5.

Quanto às minhas leituras, organizo-as por ano, por género e formato. Tenho uma categoria para os meus livros favoritos, atribuo classificações, vou actualizando a minha leitura à medida que vou avançando e vou-me mantendo a par daquilo que as pessoas também vão lendo. Sendo uma rede social, é possível ver o que os outros andam a ler e, o que acontece muitas vezes comigo, decidir ler um livro mediante a cotação que ele tem no Goodreads e ler algumas opiniões antes de o comprar ou ler. Isto pode ser bom e pode ser mau. Às vezes ponho-me a pensar que tenho saudades de agarrar um livro sem saber nada sobre ele a não ser a sinopse na contracapa. Mas vivemos na era da informação e da comunicação e esta ferramenta pode ser bastante útil.

Outras plataformas

O Goodreads não é a única plataforma deste género. Existem outras, cada uma com o seu próprio estilo e funcionalidades, para poderem manter um registo daquilo que vão lendo. Deixo-as aqui caso queiram ir cuscar. Existem mais, mas estas foram as que encontrei:


  • Documentos - Folha Excel

Tenho também uma folha de Excel já há uns anos onde vou apontando as minhas leituras, as minhas compras, os livros que me são oferecidos e outras coisas que tais. Assim fico também com um registo para mim daquilo que vou lendo. Confesso que durante uns anos esse documento ficou esquecido, mas voltei a utilizá-lo este ano. Dá muito jeito porque podemos ficar com um registo anual do que vamos lendo e comprando, do dinheiro que gastamos em livros, de quantos lemos através de empréstimos à biblioteca, de quantas páginas lemos, se lemos mais autores masculinos ou femininos, em português ou noutras línguas... Permite várias leituras e através disso podemos, por exemplo, alterar alguns hábitos de leitura, ou comprometermo-nos a ler mais um tipo de livros ou autores, tornando as nossas leituras mais diversas, por exemplo.

Formato analógico

  • Moleskin Passions - Book Journal

Mas nada como um bom caderno e uma certa, certo? Eu pelo menos adoro escrever nesse sentido. O digital é mais rápido e prático, mas não abdico de um bom caderno para ir registando aquilo que leio também. Nesse sentido, tenho um Book Journal da Moleskine. Não sabem o que é? Espreitem aqui: Moleskine Passions - Book Journal

Aqui registo as minhas leituras por escrito, mas também listas minhas: os livros que quero ler brevemente, livros que me chamaram a atenção, livros que li e foram adaptados para filmes ou séries... É aquele acessório que não precisamos, mas que queremos! Além disso, acaba por ser o único formato físico que possuo onde o que leio vai sendo registado para memória futura. Mas se não tiverem um caderno destes, qualquer caderno serve para este propósito.


E vocês, como registam as vossas leituras? Têm algumas dicas para além destas?