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Papéis e Letras

Divagações sobre livros e a minha vida de leitora

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    Primeiro, quem me acompanha por aqui, já viu que eu dou 6 estrelas a livros como pontuação máxima, ao invés das 5 estrelas típicas do Goodreads. A razão disso acontecer tem a ver com o facto de eu ter acrescentado uma pontuação para os livros que desisti de ler, que é 1 estrela. Quero mudar isso, porque pode ser confuso e porque, na realidade, se não termino um livro também não venho falar sobre ele. Por isso, fica aqui sistema de classificação dos livros que leio que, a partir de hoje, será de 1 a 5 estrelas, e que reflecte o que senti em relação ao livro, em vez de classificar só como "Bom" ou "Mau", ou "Excelente".

    1 - Não gostei
    2 - Meh
    3 - Gostei
    4 - Gostei Muito
    5 - Adorei

    Posto isto, vamos ao que interessa: o que me faz dar 5 estrelas a um livro? Várias coisas.

    Quando se lê muito e se tem contacto com vários géneros e várias histórias, vai-se tornando mais difícil o sermos surpreendidos e marcados por um livro. Não porque esses livros sejam maus, ou não sejam grandes obras literárias, mas porque nos tornamos mais exigentes enquanto leitores. Já sabemos o que gostamos e não gostamos, o que nos toca, o que nos marca. Enquanto leitora, acabo por procurar livros que me surpreendam, que me toquem, que me desafiem e me marquem, de alguma forma.

    As classificações e pontuações, seja em livros, filmes, séries, o que for, são sempre subjectivas. Cada um classifica os livros como quiser, até porque um mesmo livro pode ser experienciado de maneiras diferentes por vários leitores e aquilo que significa para mim, pode não significar para outras pessoas. Neste sentido, eu sei o que me faz dar 4 ou 5 estrelas a um livro, mas não sei o que faz outra pessoa fazer o mesmo - os critérios podem ser diferentes. Por isso, este não é um post em que vos digo como devem avaliar as vossas leituras. É, sim, um post sobre as razões que me levam a dar pontuação máxima aos livros que leio, guiando-me, claro, pelas pontuações do Goodreads, em que 5 estrelas é a pontuação máxima que se dá a um livro.

    Segundo o Goodreads, de todos os livros que li (349), só cerca de 20% foram classificados por mim com 5 estrelas. Por isso, estes são alguns dos meus livros favoritos de sempre, ainda que haja livros de 4 e 3 estrelas que também se encaixam nessa categoria. Provavelmente são só de 4 ou 3 estrelas porque lhes faltou alguma coisa, a meu ver, ainda que me possam ter marcado. Mas então, o que faz com que estes livros se destaquem e mereçam as 5 estrelas?

    • Um livro 5 estrelas é um livro bem escrito, coeso e que me suscitou reacções fortes. É memorável, tem personagens fortes, complexas, com um enredo interessante capaz de me prender do início ao fim.
    • O meu investimento emocional, nestes livros, é grande. Tem de ser um livro que me diga alguma coisa a esse nível, que me agarra ao ponto de eu me preocupar ou identificar com as personagens do livro. Sofro com elas, rio com elas, caminho ao lado delas, identifico-me com elas. Tem de abordar temas que me dizem alguma coisa e daí a minha ligação emocional.
    • No que diz respeito ao enredo, tem de ser um livro com uma narrativa muito bem construída, que me interessa, que me pode ensinar alguma coisa, e que me faça acreditar naquilo que estou a ler - seja uma ficção histórica, fantasia, um thriller ou um livro de outro género qualquer. Tem de me fazer pensar, ter bons diálogos e uma boa construção de personagens que me faça estar completamente imersa na história.
    • Para levar 5 estrelas, tem de ser um livro inesquecível, que contribuiu para o meu enriquecimento pessoal e enquanto leitora. Potencialmente, ensinou-me alguma coisa - seja a nível histórico, pessoal, social, literário... Em qualquer área. Será, certamente, um favorito da vida.
    Este são os meu critérios - os vossos serão, certamente, diferentes. E a beleza dos livros é isso mesmo: as pessoas podem ter opiniões diferentes sobre um mesmo livro. Há sensibilidades diferentes, perspectivas diferentes, vivências diferentes e por isso é que os livros são essenciais, porque permitem várias leituras e agradar a pessoas diferentes.

    Ficaram, assim, a conhecer aquilo que me leva a dar 5 estrelas a um livro. Quais são os vossos critérios?

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    O que é o MangaLipa Mania? Ora bem, para vos explicar o que isto é, temos de andar um pouco mais para trás.

    O ano passado, a Filipa e a Manganet, duas booktubers portuguesas a viver no Reino Unido, fizeram uma competição de leitura entre elas que consistia em ler o máximo de páginas possíveis durante um mês, com desafios diários todos os dias, que podiam ajudar ou desajudar a leitura: o MangaLipa. A competição teve tanto sucesso que elas abriram-na para toda a gente que quisesse participar, organizando o MangaLipa Mania, que ocorreu durante 2 semanas. Organizaram-se equipas, a Team Manga e a Team Lipa, que concorriam uma contra a outra, para ver quem conseguia ler o maior número de páginas.

    Em 2020 vi tudo de fora, ia acompanhando o pessoal no Instagram, ia vendo os vídeos delas no YouTube, e no fim fiquei com pena de não ter participado, porque me parecia muito giro. E o que aconteceu este ano? Elas voltaram a fazê-lo! De maneiras que me inscrevi, sou da Team Lipa e de 10 a 23 de Maio vou ler que nem uma louca para a competição. No total das duas equipas, somos 200 pessoas a participar nesta competição de leitura, cujo objectivo é desafiarmo-nos a nós próprios a ler o máximo possível, conhecermos mais pessoas, ler em conjunto, partilhar toda esta loucura e divertirmo-nos todos durante 2 semanas.

    Convido-vos a ver os vídeos delas de ambas as competições, porque vão divertir-se só de os ver. Deixo aqui as listas de reprodução respectivas no YouTube:

    MangaLipa 2020
    MangaLipa Mania 2020
    MangaLipa 2 (2021)
    MangaLipa Mania 2 (2021)

    Este ano volta-se à mesma loucura, com coisas novas, interessantes e divertidas para animar a malta a ler o máximo de páginas que conseguir durante as próximas duas semanas. Vai haver muita conversa no nosso grupo do Discord, vai haver vídeos, vlogs e partilhas do pessoal no Instagram, por isso vai haver muita coisa a mexer.

    Por aqui, já tenho tudo a postos para começar, os potes preparados com os papelinhos para os desafios e ajudas, o bullet journal preparado também, e já tenho uma pilha jeitosa de livros preparados para estas duas semanas. Tenho mais livros do que aqueles que, provavelmente, vou conseguir ler, mas é sempre bom ter a mais do que a menos!



    Em formato físico tenho: 
    • Coisas de Loucos, de Catarina Gomes
    • The Library of the Unwritten, de A. J. Hackwith
    • The Turn of the Screw, de Henry James
    • A Darker Shade of Magic, de V. E. Schwab
    • Burial Rites, de Hanna Kent

    Em e-book, no Kobo, tenho:
    • The Only Good Indians, de Stephen Graham Jones
    • The Blade Itself, de Joe Abercrombie
    • The Troop, de Nick Cutter
    • A Good Girl's Guide to Murder, de Holly Jackson
    No total são nove livros, alguns deles com o respectivo audiobook para acompanhar e fazer com que a leitura flua melhor. Será que os vou conseguir ler todos? Será que não? Será que ainda vou precisar de mais? Será que a pilha vai mudar? Não sei. Acho que não os vou ler todos, mas como vi tanta gente com o mesmo ritmo de leitura que eu a ler 10 livros em duas semanas, o ano passado, já nem digo nada.

    E é isto. Daqui a duas semanas voltamos a falar sobre esta competição, com o balanço de leituras deste MangaLipa Mania 2!
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    Estamos no ano de 2021 e os podcasts têm ganho cada vez mais terreno, tendo cada vez mais variedade e apelando a vários públicos que tem vários interesses. Temos podcasts sobre desporto, humor, entrevistas, música, informação, merdas sem jeito, saúde mental, e é um meio de comunicação e expressão que tem ganho cada vez mais ouvintes e mais pessoas que os queiram fazer.

    Confesso que aderi, como ouvinte, a isto dos podcasts há relativamente pouco tempo, talvez em meados do ano passado. No início, era um meio que não me via a consumir, mas foi conquistando terreno e, de forma mais ou menos assídua, vou-lhe prestando maior atenção. Ouço quando estou a fazer tarefas domésticas, em noites de insónias, transportes, enquanto almoçava sozinha (nos tempos em que dava para ir almoçar fora, lembram-se?).

    E no âmbito da literatura não é diferente. Cada vez são mais as pessoas a optarem por este meio para conversarem sobre livros e sobre literatura, sozinhas ou acompanhadas. Por isso, decidi listar aqui alguns dos podcasts literários portugueses que fui descobrindo com o tempo, que ouço, que acho que valem a pena serem ouvidos por vocês e que me servem de inspiração também.

    Anatomia-do-livro

    Anatomia do Livro - Este foi o primeiro podcast que comecei a ouvir de forma mais atenta e assídua. A Ana, portuguesa a viver na Suécia, traz-nos sempre opiniões interessantes, tem gostos semelhantes aos meus, não tem papas na língua, de vez em quando tem alguns convidados, e eu gosto muito de a seguir.

    fora-da-estante

    Fora da Estante - Este é o podcast da Bárbara, onde ela convida várias pessoas a falarem sobre o seu amor pelos livros e sobre temáticas ligadas à área da literatura.

    livrolicos-anonimos

    Livrólicos Anónimos - Este podcast é feito a duas vozes, pelo João e pela Joana, onde nos levam por várias conversas sobre autores e sobre livros. Já dei algumas gargalhadas a ouvi-los!

    palavra-podcast

    Palavra Podcast - Aqui, a Maria Isaac também partilha o seu amor pelos livros e por temáticas ligadas à literatura.

    porta-setenta

    Porta Setenta - A querida Daniela tem um blog, o Porta Setenta, e decidiu criar um podcast com o mesmo nome que lhe serve como extensão das opiniões que publica por escrito. É um podcast mais recente, mas que vale a pena ser ouvido.
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    Olá a todos!

    Muito se fala por aqui, e não só, de listas de livros que queremos ler, por um motivo ou por outro. E livros que sabemos que não temos qualquer interesse e intenção de ler? Aqueles livros que não temos mesmo nenhuma intenção de ler, por mais aclamados, sucedidos e importantes que possam ser no campo da literatura. Vi o vídeo de uma das minhas booktubers favoritas a falar disto, a Noelle Gallagher, e achei tão engraçado, que resolvi vir fazer o mesmo.

    Só um pequeno disclaimer: não tenho nada contra os livros que irei mencionar, nem contra os autores, nem contra as pessoas que os leram e adoraram. Só não tenho interesse em lê-los, é uma escolha pessoal.

    Preparados? Aqui vão as perguntas.


    Um livro popular que TODA A GENTE adora, mas que eu não tenho interesse em ler

    Normal People, da Sally Rooney. Teve imenso sucesso quando saiu e nos anos a seguir, muito também pela adaptação para série, mas... Não é para mim. Não tenho mesmo interesse em ler. Sei que se tornou num livro favorito para muita gente, não lhe tiro o mérito, mas não é para mim.


    Um autor ou livro clássico que não tenho interesse em ler

    Eu adoro clássicos e tenho vários autores e obras na lista de livros que quero ler. Mas há alguns livros que não me apelam minimamente. São eles: Guerra e Paz (Leo Tolstoy), Oliver Twist e David Copperfield (Charles Dickens), Moby Dick (Herman Melville) e Em Busca do Tempo Perdido (Marcel Proust).


    Um autor cujos livros não tenho interesse em ler

    James Joyce. Este foi demasiado fácil!! Coitado do senhor, nada contra, mas bastou-me estudar um dos seus contos, quando estava na faculdade e decidi logo ali que era um autor a que não voltaria. Mesmo depois disso, quando me pus a pesquisar sobre outras obras suas, como Ulysses e Finnegan's Wake, a única palavra que me vinha à cabeça era "nope". E o sentimento perdura. 

    Outra autora é Sarah J. Maas. Autora amada por uma grande parte das pessoas que gostam de fantasia, mas acho que não é para mim. Não tenho propriamente uma opinião formada, simplesmente não sinto vontade de ler os livros dela. Na mesma linha, está a autora Cassandra Clare.

    Já em língua portuguesa, tenho o nome de Clarice Lispector, ainda que esteja um pouco na corda bamba. Tenho alguma curiosidade, mas não sei se alguma vez irei ler algo escrito por ela. Autores que sei que não vou, de certeza, ler nada deles são Raul Minh'alma e Pedro Chagas Freitas. Não são para mim.


    Um autor de que eu já li alguns livros, mas que decidi não são para mim

    Jane Austen. Li Orgulho e Preconceito e Persuasão e decidi que não era para mim. É uma autora amada por muitos e sei que esta minha opinião vai contra a corrente, mas de facto não acho Jane Austen nada de especial. Sorry!


    Um género no qual não tenho interesse em ler

    Romance romântico. Não tenho nada contra histórias de amor, sei que há livros muito bem escritos dentro desta temática, mas não costumo gostar de livros cujo foco são as relações românticas. Não tenho problemas com histórias de amor dentro de narrativas maiores, como ficção histórica, fantasia, romance contemporâneo, que complementam a narrativa. Mas sendo só a parte do romance, não é para mim.


    Um livro que comprei, mas que nunca vou ler

    Provavelmente A Odisseia, de Homero e Confissões, de Santo Agostinho. O primeiro comprei porque estudámos algumas partes na faculdade e até gostei, mas não sei se algum dia vou ler tudo. O segundo, porque estudámos um pouco de filosofia medieval na faculdade e achei que fazia bem em comprá-lo. Comprei. Não o li. E acho que nunca o vou ler! 


    Uma série de livros que não tenho interesse em ler

    Bom, vamos para a fantasia, né? Há várias séries que já comecei e ainda não acabei, e uma pessoa já tem tanta, mas tanta série para ler que começa a deixar de parte outras tantas de parte logo à priori. Algumas delas são: Hunger Games, da Suzanna Collins, Divergent, da Veronica Roth, e The Folk of the Air, da Holly Black. Nunca me puxaram, nunca me despertaram interesse, e continuo a sentir o mesmo.


    Uma novidade literária que não tenho interesse em ler

    Creio não haver assim um livro que, neste momento, seja uma novidade esperada por muitos e que eu não tenha grande interesse em ler, mas lembrei-me de Klara and the Sun, do Kazuo Ishiguro.


    E vocês? Que livros não vos interessa mesmo ler?

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    Numa espécie de pré-celebração do dia da mulher, já no dia 8 de Março, resolvi compilar uma pequena lista das minhas autoras favoritas.

    A verdade é quando decido ler um livro, baseio-me na premissa do livro, no enredo, na sinopse que apresentam e que me atrai. Há uns anos, passava-me ao lados lia mais livros escritos por homens ou por mulheres, mas comecei a ter uma maior consciência em relação a isto, porque não ler livros escritos por mulheres é não lhes dar vozes. E enquanto mulher, como é que eu poderia fazer isto? Claro que, enquanto leitores, vamos em busca da próxima história que nos cative e tanto as há escritas por homens como por mulheres. Mas as escritoras femininas acabam por ser preteridas, muitas vezes, por autores masculinos e isso, aos poucos, tem vindo a mudar - e ainda bem. Nesse sentido, também eu tenho sido mais consciente nas minhas escolhas e o ano passado, da totalidade de livros que li, metade foram escritos por mulheres. 

    Há que darmos atenção às vozes de escritoras mulheres, especialmente porque, sendo nós próprias mulheres, há uma outra ligação emocional tanto à escrita como às personagens, e também porque em determinados livros, uma voz feminina traz outra profundidade às temáticas abordadas e à forma como a narrativa progride. Quero ler cada vez mais autoras femininas porque de facto me sinto mais próxima das histórias que são contadas. Sinto que ainda tenho muito caminho a palmilhar, mas aos poucos vai-se chegando lá. Abaixo, segue uma pequena lista com as minhas autoras favoritas.




    Gillian Flynn - Se procuram thrillers psicológicos com personagens femininas centrais e psicologicamente complexas, então esta é a autora certa. O primeiro livro que li dela foi Objectos Cortantes, há bastantes anos e ainda hoje a história me está na cabeça. Se virem a adaptação para série com a Amy Adams, também ficam muito bem servidos, mas o livro é fantástico. Para além desse, li Gone Girl (Em Parte Incerta) que é mais um livro que nos leva numa viajem sobre o mundo das aparências, das pressões sociais e dos papéis que estão associados às mulheres e que elas "têm de cumprir". A adaptação também está muito fiel, ou não fosse um filme do David Fincher, e a Rosamund Pike será para sempre Amy Dunne. Ambos os livros são muito marcantes. Aconselho a quem gosta deste tipo de livros.

    Sylvia Plath - Este amor por Plath surgiu na faculdade. Estudei o seu único romance, The Bell Jar (A Campânula de Vidro), e também um pouco da sua poesia. Não foi preciso muito para a considerar uma autora favorita pelas temáticas profundamente femininas que aborda, pela sua voz, e pela sua escrita - tanto narrativa como poética. O que mais me atraiu na obra de Plath é a forma crua como aborda temas que podem ser tão sensíveis, como a morte e a saúde mental, mas também a maternidade, as normas restritivas ao papel da mulher na sociedade, e o tom confessional que imprime a toda a sua escrita.

    Toni Morrison - É verdade que apenas li um livro desta autora, Beloved, mas a sua escrita ficou-me tão marcada na mente que se tornou uma favorita. Quero ler todos os seus livros e planeio ler o seu The Bluest Eye. Morrison foi uma autora afro-americana cuja temática maior, transversal a todas as suas obras, é a tensão racial vivida nos Estados Unidos durante o período da escravatura, mas também durante os anos 40 e 50 do século XX. Questões relacionadas com a busca de identidade e com a forma como a sociedade americana cresceu apesar de um passado imoral e violento relacionado com a escravatura e com a segregação racial.

    Charlotte Bronte - autora do clássico Jane Eyre, um livro que teve uma influência enorme na minha vida enquanto leitora, mas também enquanto mulher, não podia deixar de fazer parte desta lista. Esta obra tem como protagonista uma rapariga, Jane, que não encaixa nos papéis impostos pela sociedade, nomeadamente no que diz respeito à mulher ser considerada inferior ao homem. Jane vê-se como igual, como uma mulher livre em posse das suas vontades e do direito de querer agir segundo elas. 

    Mary Shelley - o primeiro romance de Shelley é considerado uma das obras paradigmáticas do romance gótico, no século XIX e considerada a precursora da ficção científica: Frankenstein. A sua mãe era a activista e feminista Mary Wollstonecraft, e Shelley foi uma das vozes mais imaginativas da sua geração.

    Madeline Miller - Circe foi um dos meus livros favoritos do ano passado e este ano quero ler A Canção de Aquiles. Em Circe, Miller oferece-nos o ponto de vista desta deusa menor da mitologia grega em relação aos outros deuses, à vida no Olimpo e à sua condição de mulher: filha, amante, mãe, feiticeira. O que significa ser tudo isso, que constrangimentos existem por ser mulher e de que forma é vista pelos outros deuses.

    Chimamanda Ngozi Adichie - Sem dúvida uma das autoras de que mais gosto. Adorei todos os livros que li dela, pelo poder da sua voz, pela forma como retrata personagens femininas e pela força que lhes imprime. Todas as suas protagonistas são mulheres que se questionam, que desafiam e que não se submetem. São mulheres fortes que querem comandar as suas vidas e as histórias de cada uma são inesquecíveis. Convido-vos a ler qualquer uma das obras dela - vão ficar sempre bem servidos.

    Margaret Atwood - Autora de ficção especulativa, Atwood joga com os possíveis futuros da humanidade quando algumas coisas são levadas ao extremo. Atwood aborda questões de género, identidade, do poder da linguagem, as lutas de poder entre homens e mulheres e as suas obras são riquíssimas. Convido a leitura de The Handmaid's Tale (A História de uma Serva) e de Oryx and Crake (Órix e Crex). Ambas são fantásticas e mantêm o leitor agarrado ao enredo ao mesmo tempo que o vai fazendo reflectir sobre questões importantes e relevantes nos nossos dias.

    Florbela Espanca - Foi na minha adolescência que conheci Florbela. A sua poesia gritava dentro de mim e fiquei para sempre apaixonada por Florbela. Uma mulher à frente do seu tempo, inconformada, intensa que punha tudo de si na sua poesia. Temas como o sofrimento, o amor (e o desamor), a feminilidade e a morte estão patente na sua obra que ainda hoje merecia mais destaque.
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    RadarLiterarioJaneiro

    Eis o primeiro Radar Literário do ano, onde partilho convosco os livros que me chamaram a atenção durante este mês de Janeiro. Dois dos culpados por metade desta lista são o Álvaro e o Ludgero, do Literacidades, cujos livros já adquiri por causa das suas recomendações. São eles Coisas de Loucos, de Catarina Gomes, um livro de não-ficção que pretende reconstituir as vidas de alguns pacientes do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda a partir de alguns objectos deixados para trás, traçando ainda um retrato daquilo que eram os internamentos psiquiátricos no início do século XX; e O Peso do Pássaro Morto, de Aline Bei, um livro que aborda temáticas profundamente femininas. Ambos já foram adquiridos, pois está claro - um em papel e outro em e-book.

    Já The Quickening, de Rhiannon Ward, pretende ser uma obra neogótica que se passa no fim do século XIX e tem como foco principal uma personagem feminina. Temos o fim da I Guerra Mundial, a gripe espanhola, o espiritismo, o movimento das sufragistas e, por isso, parece-me prometedor. Depois, de uma autora portuguesa, Rute de Carvalho Serra, temos A Assassina da Roda. Fiquei a conhecer este livro a propósito da sua transformação para peça de teatro e que estreará no Teatro da Trindade a 18 de Fevereiro. O livro baseia-se em factos reais e é sobre uma mulher, Luiza de Jesus, que terá morto dezenas de crianças que eram deixadas na Roda, durante o século XVIII, em Portugal.

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    Planos Para 2021


    Já que partilhei o meu balanço de leituras de 2020, ficam aqui também os meus planos para 2021.

    Uma das primeiras coisas que estabeleci, como muitos de nós logo no primeiro dia do ano, foi o número de livros que quero ler, no desafio do Goodreads. Em 2020 li 25 livros e, como não quero agoirar a coisa, coloquei como meta ler 24 livros em 2021. Se conseguir ler mais, melhor! Se não, acho que consigo fazer pelo menos igual ao ano passado.

    Para além do Goodreads, irei participar no desafio Mount TBR Reading Challenge, que consiste em ler livros da nossa pilha, adquiridos até 31 de Dezembro de 2020. Almejei ao primeiro nível, em que lemos 12 livros da pilha, mas se conseguisse que todos os livros deste ano fossem lidos dessa pilha, era fantástico. Só que eu sei que isso não vai acontecer, portanto fiquei-me pelos 12. Mas vou tentar ler mais, claro. Estes são os dois grandes desafios a que me proponho, mas há projectos em que também quero participar de forma mais informal. 

    O Álvaro e o Ludgero, do Literacidades, estão a organizar um projecto inspirado pela série documental da RTP Herdeiros de Saramago. O documentário teve 11 episódios, cada um dedicado a um autor que tenha ganho o Prémio Saramago até hoje, e o projecto deles é ler um destes autores por mês. Não conseguirei ler todos, certamente, mas quero ler alguns, até porque tenho aqui livros deles e era uma forma de os conhecer, nomeadamente: Valter Hugo Mãe e Gonçalo M. Tavares. Há ainda autores vencedores deste prémio que gostava de ler, como Afonso Reis Cabral, Ondjaki e Andréa del Fuego.

    Para além deste, quero continuar a ler livros no âmbito do projecto Casas em Livros, da Ana. Em 2020 só li um livro para o projecto, também porque só o conheci já nos últimos meses do ano, mas quero ler livros com esta temática, em que uma casa assume um papel preponderante na narrativa. É uma iniciativa informal, é para se ir lendo e, por isso, não existe qualquer pressão. Irei fazer um post sobre este desafio, para ir registando as minhas leituras por lá também.

    Há, ainda, alguns livros que quero mesmo ler este ano e por isso, à semelhança do ano passado, também fiz uma pequena pilha de livros dos livros que não quero deixar passar ao lado. Claro que há mais, nomeadamente em formato e-book no Kobo, e ainda livros que quero comprar. Mas para começar, acho que já é uma pilha jeitosa. Ora vejam:

    TBR 2021

    Quero ler mais autores portugueses, por isso incluí livros de Afonso Cruz, Sónia Ferreira, Isabel Figueiredo e João Reis; quero voltar a Sanderson, com o seu mais recente Rhythm of War, quarto livro da saga Stormlight Archive; quero aventurar-me por este tão bem fadado The Invisible Life of Addie LaRue, da V. E. Schwab; ler mais um livro de Toni Morrison, desta vez The Bluest Eye; e enveredar novamente pela Fantasia em The Rage of Dragons. Se lerei estes e não outros, bem... só o tempo o dirá, porque eu faço planos, mas depois leio conforme aquilo que me apetece.

    E são estes os meus planos para este ano. Acompanhem-me em mais esta jornada literária e veremos o que este ano me traz no que toca a leituras. Que tenham todos um excelente 2021, com saúde, pessoas boas e livros excelentes!
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    Este post era para ter sido publicado a semana passada, mas não conseguir fazê-lo. Só no fim-de-semana é que me pude sentar para escrever algo com pés e cabeça sobre este tema. Porque há tanta, mas tanta coisa sobre a lenda Arturiana adaptada a meios contemporâneos, que não dá para falar de tudo, como é óbvio. Mas, mais uma vez, vamos começar pelo início. Para quem perdeu o primeiro post, nele falo das origens da literatura Arturiana no período medieval. Hoje, foco-me nas suas adaptações pós-medievais.



    O século XIX foi muito importante para a lenda Arturiana, especialmente porque esta foi uma época de recuperação de estéticas, ideais e valores medievais, espelhando-se na literatura, na arquitectura e na arte em geral (só para lembrar que me estou a cingir ao contexto britânico). A esta revisitação e recuperação de  e temas e imagens reminescentes do período medieval, mas que servem valores, ideais e objectivos pós-medievais, chama-se Medievalismo. Como tal, o século XIX, e em especial a sociedade Vitoriana, vai recuperar a lenda Arturiana nas mais variadas vertentes como forma de tentar evocar um período visto de forma idealizada, com uma ordem social específica a que os Vitorianos almejavam alcançar novamente. Assim, a Idade Média era vista como uma Era Dourada britânica, em parte histórica e em parte mítica, que teve grande impacto na cultura do século XIX.

    Neste sentido, o fascínio pelo período medieval trouxe um renovado interesse pelos romances de cavalaria  e pelo código de conduta dos cavaleiros medievais, tal como eram difundidos pelos romances Arturianos. Todo o homem deveria aspirar ao comportamento e valores pelos quais os cavaleiros se regiam e, por isso,  obras medievais esquecidas foram re-descobertas e alvo de novas publicações, como Le Morte D'Arthur e Sir Gawain and the Green Knight, esta última editada pela primeira vez em 1839 por Frederik Madden. A obra de Malory levou a inúmeras adaptações e reinvenções da lenda Arturiana, nomeadamente por parte da Irmandade Pré-Rafaelita, na área da pintura, e por Alfred Lord Tennyson, na área da literatura.

    No que diz respeito aos Pré-Rafaelitas, são inúmeros os quadros pintados que ilustram cenas específicas de Le Morte D'Arthur, ou personagens da esfera Arturiana. Um dos meus pintores favoritos é Edward Burne-Jones, que pintou quadros como The Beguiling of Merlin, retratando a cena em que Vivien enfeitiça Merlin e este fica aprisionado dentro de uma árvore, inspirando-se num poema de Tennyson "Merlin and Vivien". Dele é também The Last Sleep of Arthur. Outro quadro meu favorito é o The Lady of Shallot, de William Holman Hunt, que retrata a maldição de uma mulher que vive confinada numa torre de Camelot, condenada a olhar para o mundo exterior através de um espelho, tecendo aquilo que vê num tear. Até ao dia em que, ao ver Lancelot, ela olha para fora da sua janela, directamente para o mundo real, fazendo com que se abata sobre si a maldição. O espelho quebra-se, ela encontra um barco onde inscreve o seu nome e o rio leva-a até Camelot, onde acaba por morrer.

    Este The Lady of Shallot é inspirado num poema de Tennyson, com o mesmo título, que espelha uma enorme influência da estética medieval combinada com a estética do Romantismo, aliando ambas numa nova adaptação da lenda Arturiana. Tennyson é responsável, ainda, por uma das obras mais influentes do século XIX, The Idylls of the King, um ciclo de doze poemas que recontam a história de Artur, do amor proibido entre Lancelot e Guinevere, dos seus cavaleiros, e da ascensão e queda de Camelot. Nesta obra,  Tennyson adiciona, remove e transforma alguns elementos de forma a adequarem-se aos ideais e valores Vitorianos, construindo uma alegoria da sociedade Vitoriana através da lenda Arturiana. Esta obra acaba, assim, por servir de crítica à sociedade deste tempo que olha para a Idade Média de forma romantizada e idealizada,  na busca de ideais que são inverosímeis. Tennyson é, assim, uma influência fulcral para os Pré-Rafaelitas, mas também responsável pela utilização de uma narrativa medieval para servir propósitos contemporâneos da sua época. E é esta maleabilidade da lenda e das narrativas Arturianas que faz com que ela seja constantemente alvo de adaptações e revisitações nos mais variados meios, já entrando no século XX.


    Ora bem, novas adaptações da lenda Arturiana nos séculos XX e XXI são mais que muitas e eu não vou falar de todas, como podem adivinhar. No entanto, é interessante perceber que estas narrativas oferecem um enorme potencial de transformação a qualquer período e a qualquer tipo de valor que se pretende transmitir. Não nos esqueçamos, por exemplo, que Jackie Kennedy comparou a presidência do seu falecido marido, John Kennedy, a uma Camelot dourada e esplendorosa que terminou com o seu assassinato.

    Na literatura, há obras que são fulcrais no que toca não só à recuperação da lenda Arturiana, como também à sua reinvenção para servir propósitos e públicos contemporâneos. Não nos esqueçamos da obra de TH White, The Once and Future King (1958), baseada na obra de Malory, mas com um cunho mais humorístico no qual se explora questões de natureza humana, especialmente no que toca ao poder, e como Artur tenta ser o cavaleiro perfeito. A primeira parte, ou o primeiro livro, que compõe esta obra, The Sword in the Stone, deu origem ao filme da Disney com o mesmo nome, mais conhecido por cá como A Espada Era a Lei (1963).

    Outra obra impossível de mencionar é As Brumas de Avalon (1983), de Marion Zimmer Bradley, que confere uma roupagem feminista a uma obra que tem, como qualquer obra medieval, um pendor patriarcal, onde as grandes figuras são masculinas e as mulheres ora são idealizadas ora vilificadas. Nesta obra, Zimmer Bradley foca-se nas figuras femininas que estão ligadas à magia, ao conhecimento do mundo natural e dos mistérios que estão para lá daquilo que vemos com os nossos olhos. No entanto. há autores que se afastaram desta atmosfera mais mágica da lenda para se focar num possível passado histórico que ajuda a contar a história de Artur que está profundamente ligada à história da Grã-Bretanha, como é o caso de Bernard Cornwell, com a sua Trilogia dos Senhores da Guerra (1995-1997). Nela, Cornwell recupera algumas personagens menos conhecidas ou até esquecidas da lenda Arturiana, conferindo-lhe uma aura mais histórica.

    Outros autores são igualmente importantes no que diz respeito à presença da lenda Arturiana na literatura, como Stephen Lawhead, Rosalind Miles, Mary Stewart, Rosemary Sutcliff e até JRR Tolkien, com The Fall of Arthur, um poema inacabado do autor, em verso aliterativo, em que Artur figura como um líder militar bretão contra os invasores saxões. E já que falamos de Tolkien, apesar de ele não ser fã da lenda Arturiana, a sua influência é inegável em O Senhor dos Anéis e num dos ensaios seminais sobre Fantasia, "On Fairy-Stories", Tolkien afirma que a lenda Arturiana faz parte daquilo a que ele chama de Caldeirão das Histórias, que são as fontes da Fantasia. E é, de facto, neste género que as histórias Arturianas mais abundam, pelo seu potencial ligado à magia e ao sobrenatural, principalmente pela presença de figuras como Merlin e Morgan Le Fay, a Dama do Lago, a espada Excalibur e a presença da Ilha de Avalon.


    E passando para o cinema e para a televisão, as histórias do Rei Artur são, provavelmente, as histórias de origem medieval mais adaptadas para o cinema e para a televisão, seguindo-se as de Robin Hood. Basta uma pesquisa no doutor Google e têm listas infindáveis de adaptações Arturianas. Por isso, vou cingir-me aqui às minhas favoritas.

    O filme que talvez melhor capte a essência original da lenda Arturiana presente na literatura medieval, é Excalibur (1981), de John Boorman. Já vi este filme vezes sem conta e a atmosfera que Boorman cria é muito semelhante à atmosfera criada pelos romances Arturianos originais. Boorman confessa, ainda, influências da estética Pré-Rafaelita e motivos de origem Celta, e ainda uma curiosidade: Boorman fez este filme numa altura em que estava a considerar filmar uma adaptação de O Senhor dos Anéis... Outro filme importante, mas no extremo oposto, é Monty Python and the Holy Grail (1975). Este é um filme de comédia que, mais uma vez, se serve de elementos da literatura Arturiana para tecer um comentário mordaz à sociedade britânica do seu tempo, num filme cheio de ironias. É de morrer a rir. Vejam!

    Existem, ainda, interpretações mais românticas, como Lancelot, O Primeiro Cavaleiro (1995), que solidificou a presença de Richard Gere como grande galã do cinema, mas não esperem uma adaptação fiel à obra. Não nos podemos esquecer de King Arthur (2004), que tenta adicionar um pouco de realismo e de contexto histórico à lenda Arturiana, e de King Arthur: The Legend of the Sword (2017), de Guy Ritchie. Este é um filme cheio de acção, magia, a pender para o fantástico, com uma nova roupagem em relação aà espada Excalibur - Ricthie confere-lhe o significado medieval, mas relatado de forma diferente. É interessante, mas o filme é péssimo. Sorry!

    No que diz respeito a séries de televisão, não há como não mencionar Merlin (2008-2012), da BBC, que apresentou a lenda Arturiana e as suas personagens a um público mais jovem e mais consumidor neste formato e que aproximou estas histórias de um formato mais ligado à Fantasia, sendo o foco a personagem Merlin. Este ano foi lançada uma nova série (que ainda não vi, confesso), chamada Cursed, da Netflix, baseada na novela gráfica com o mesmo nome, da autoria de Frank Miller e Tom Wheeler, que reimagina a lenda Arturiana através do olhar de Nimue.

    Claro que há muitos mais livros, filmes e séries, mas tentei focar-me naquilo que achei essencial e mais relevante para o que queria partilhar. Como podem ver, estas histórias estão sempre a ser renovadas, reimaginadas e adaptadas para servir propósitos, públicos e valores diferentes, conforme as épocas que se vão vivendo. Mais de 1000 anos depois, continuamos fascinados e apaixonados por estas histórias, pelas épocas que elas evocam, pelas personagens que nelas habitam, pelas aventuras e demandas dos cavaleiros, pela magia de feiticeiros e feiticeiras e pelos mistérios que continuam a suscitar interesse nas mais variadas áreas - tanto do entretenimento como do saber. 

    Se Artur, de facto, existiu se calhar não interessa nada. O que interessa é o quão enraizado e presente ele está no nosso imaginário e como continua a ser alvo de novos olhares. É um tema que me apaixona e adoro falar sobre isto. Por isso, se tiverem questões ou sugestões a fazer, é só deixarem nos comentários ou enviarem-me um e-mail.
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    A literatura Arturiana é uma das minhas paixões - a nível pessoal, profissional e académico. Fiz a minha tese de mestrado sobre literatura arturiana medieval, durante o doutoramento continuei a investigar sobre este tema que tanto me apaixona, e podia ficar o dia todo aqui a falar-vos sobre este tema. Tanto na sua origem literária, que é medieval, como nas suas centenas de adaptações nos dias de hoje nos mais variados géneros, como no cinema, na televisão e em obras literárias que pretendem dar uma nova roupagem a estas histórias. Topo uma história arturiana de origem a milhas e fico com urticária cada vez que a lenda é desvirtuada. Atenção: não tenho qualquer problema com novas adaptações que implementem algumas mudanças em relação à história original. O meu problema é quando desvirtuam a essência da história ou fazem leituras completamente sem sentido. 

     

    E como há paletes de histórias sobre Artur, a sua corte e os seus cavaleiros, resolvi pôr em prática uma ideia que já andava a magicar na minha cabeça de escrever por aqui sobre literatura Arturiana. Mas como é muita informação e eu não quero que o vosso cérebro impluda, decidi dividir aquilo que quero dizer em dois posts: o primeiro sobre as origens da lenda arturiana e a literatura Arturiana medieval, e outro sobre as influências da lenda arturiana nos mais variados meios da cultura popular dos séculos XX e XXI.

     

    Mas e que tal começarmos pelo início?


     



    Ora bem, estaríamos aqui vários dias a falar da origem do rei Artur, mas vou tentar resumir-me ao essencial. O primeiro registo de um Artur que dará, mais tarde, origem à figura do rei Artur tal como preconizada pelos romances medievais, data do século IX, quando o monge galês Nennius escreve uma crónica pseudo-histórica sobre a Grã-Bretanha desde os seus primórdios, a Historia Brittonum. Nesta obra, Nennius afirma que é Artur o líder de uma das mais importantes batalhas dos bretões contra os saxões, a batalha do Monte Badon - a batalha paradigmática do mito arturiano. No entanto, esta batalha é mencionada em textos anteriores, como por exemplo Gildas, em De Excidio Britanniae, obra do século VI em que Gildas atribui esta batalha ao líder militar Ambrosius Aurelianus - possível origem histórica de uma figura semelhante a Artur.

     

    Avançando uns séculos, aquela que é considerada a primeira obra em que Artur figura claramente como rei é na crónica também pseudo-histórica de Geoffrey of Monmouth, Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Bretanha), datada de 1136. E é Monmouth o pai de grande parte das figuras que hoje associamos ao Rei Artur: é ele quem cria Morgan Le Fay e a Ilha de Avalon, cria também Merlin e as suas profecias, cria ainda a linhagem de Artur que é filho de Uther Pendragon, a sua espada Excalibur e personagens como Guinevere e Mordred. É claro que todos estes elementos têm raízes mais antigas, nomeadamente na mitologia celta do País de Gales, de onde Monmouth era, influências que o autora acaba por imprimir a esta lenda, fazendo-a crescer com estes novos elementos. Para os mais curiosos, podem inclusive ler Mitos e Lendas Celtas: País de Gales, daquela que foi a minha orientadora de mestrado e doutoramento, Angélica Varandas. Neste livro têm a tradução de vários contos que compõem os mitos celtas galeses e a relação que alguns deles têm com a lenda arturiana. Sei que há uns tempos estava esgotado, mas se gostam da lenda arturiana e querem saber mais sobre ela, este é um bom ponto de partida.

     

    E já que falamos em mitologia celta, para além da obra de Monmouth, há um conjunto de textos da mitologia celta galesa em que alguns se relacionam directamente com Artur. Esses textos foram compilados já no século XIX pela Lady Charlotte Guest, que os intitulou The Mabinogion. O registo destes textos já é tardio, datados do século XII e XIII, mas as histórias permanecem celtas nos seus motivos básicos. Entre os vários textos em que aparece Artur ou personagens ligadas ao mito arturiano, destaca-se Culhwch e Olwen, o mais antigo conto galês em prosa sobre Artur.

     

    Portanto, baralhando e resumindo esta parte: origem de Artur remonta aos mitos celtas galeses, tendo sido Nennius o primeiro a registar o nome de Artur como líder da batalha paradigmática desta lenda e Monmouth o pai de grande parte dos elementos e das figuras que hoje associamos à lenda arturiana.

     


     

    E depois de tentativas mais ou menos conseguidas de fazer de Artur uma figura histórica ligada à identidade bretã contra os invasores saxões, encontramos a literatura Arturiana medieval, inserida no contexto do romance de cavalaria. O romance de cavalaria surge como um desenvolvimento das canções de gesta (conjuntos de poemas épicos que contam feitos heróicos) e da poesia trovadoresca (que desenvolve os ideais de cortesia e de amor cortês). E o elemento literário que que vai diferenciar as canções de gesta do romance é, precisamente, a presença do amor cortês, algo que será bastante visível no romance arturiano. Assim, no romance temos a junção dos elementos mais bélicos, associados aos grandes feitos do herói, com os ideais de cortesia e de amor cortês.

     

    Posto este pequeno à parte sobre o romance de cavalaria, existem três grandes ramos da literatura medieval que se organizam em ciclos ou em "matérias": a Matéria de França, a Matéria de Roma e a Matéria da Bretanha. A primeira é sobre Carlos Magno e o seu paladino, Rolando, tendo como obra principal La Chanson de Roland (A Canção de Rolando), do séc. XI. Já a Matéria de Roma centra-se na vida e obra de Alexandre, o Grande. Por fim, a Matéria da Bretanha é sobre a lenda arturiana. 

     

    E que obras compõem a Matéria da Bretanha? Muitas!! Até porque a lenda arturiana, apesar de ter origem no território da Grã-Bretanha, acabou por se desenvolver muito mais em França, a partir do século XII, e teve novo florescimento em Inglaterra já nos séculos XIV e XV. Uma das figuras imprescindíveis para a literatura Arturiana medieval foi Chrétien de Troyes, que criou as figuras de Perceval, Lancelot e o romance entre este e Guinevere, em obras fulcrais como Lancelot, le Chevalier de la Charrette e Perceval ou le Conte du Graal (romance que permanece inacabado e teve quatro continuações). E aqui temos a primeira menção ao Graal, um objecto e um motivo que se vai revelar central para as aventuras dos cavaleiros arturianos. Depois de Chrétien, temos o Ciclo da Vulgata e da Pós-Vulgata, do século XIII, em que o Graal ganha maior proeminência, uma vez que a narrativa começa com a chegada do Graal a Inglaterra, pelas mãos de José de Arimateia, até à queda de Camelot. É aqui que o cavaleiro Galahad é o escolhido para obter o Graal, depois de os cavaleiros da Távola Redonda partirem em Demanda. É nestas obras que a lenda Arturiana ganha um cunho mais ligado ao Cristianismo pela via da Demanda do Santo Graal.

     

    Migrando de França para Inglaterra novamente, é já no século XIV que surge o mais importante romance Arturiano medieval inglês - Sir Gawain and the Green Knight, de autor anónimo (apelidado hoje em dia como o Gawain-Poet), uma vez que é nesta obra que é recuperado o herói Arturiano inglês por excelência, Gawain, cujas origens celtas, pagãs, o relegaram a uma personagem medíocre na literatura Arturiana francesa, que deu maior destaque a Galahad, o cavaleiro perfeito e cristão. Para além de Sir Gawain, é em Inglaterra que se escreve a obra que condensa todos as tradições, origens, e versões da lenda Arturiana, quando Thomas Malory escreve Le Morte D'Arthur, já no fim do século XV, obra que continuou a ser publicada até ao século XVII. Malory condensa elementos da tradição francesa, mas também britânica e de origem celta.


    Baralhando e resumindo: a lenda Arturiana desenvolve-se mais em França, com o advento do romance de cavalaria, mas no século XIV volta a ressurgir no contexto inglês. Principais obras? As de Chrétien de Troyes, o Ciclo da Vulgata e da Pós-Vulgata, o Gawain-Poet e Malory.

     

    Gostaram? Então agora é só esperar uns dias até ao próximo post, onde falarei de da lenda Arturiana num período pós-medieval e de algumas adaptações para cinema, televisão e outras obras literárias.

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    Como assim já chegámos ao fim de Outubro? Como assim o ano está quase a acabar? Não estou a saber lidar...

    E como já é apanágio deste canto da blogosfera literária, fim do mês significa Radar Literário, onde revelo os livros que me chamaram a atenção durante as últimas semanas.


    The Invisible Life of Addie LaRue, de V.E. Schwab esteve por tooooodo o Instagram, este mês. Não sou de ler livros que estão a ser muito badalados, a não ser que sejam de autores que conheço e que gosto. Mas a verdade é que fui lendo pequenos excertos do livro à medida que surgiam opiniões e publicidade sobre o livro, e isso foi o suficiente para me chamar a atenção. E, como não posso ver nada, comprei o livro uns dias depois de ter sido publicado e estou à espera que ele chegue!

    Já The Only Good Indians, de Stephen Graham Jones li uma opinião que foi o suficiente para me despertar a curiosidade. Foi isso, uma vista pela sinopse no Goodreads - gostei, adicionei à lista. Além disso, adoro a capa do livro. Por isso, por mim, está feito!

    Com The King's General, finalmente adiciono mais uma obra de Daphne Du Maurier à minha lista. Li o Rebecca há uns bons anos e amei o livro. Mas porque ainda não peguei em mais nenhum da autora, é algo que me ultrapassa. Por isso, e como quero voltar à escrita de Du Maurier, coloquei este na lista, depois de ter visto a Filipa Books a dizer maravilhas do livro, no seu vídeo de leituras de Setembro.

    Por fim, This House is Haunted, de John Boyne. Ando há algum tempo a querer ler livros de John Boyne, mas nunca sei por onde começar. Imbuída deste espírito de obras com um ambiente mais assustador, mais gótico, descobri que Boyne tem um livro que mistura ficção histórica com horror e uma atmosfera gótica e pareceu-me o livro ideal para me iniciar na obra dele. E sim, também já está encomendado.
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    Quantas vezes já ouviram dizer que devemos apoiar o que é nosso? Quer seja nos produtos de supermercado, roupa, calçado, joalharia... Somos incentivados, sempre que possível, a comprar produtos de origem portuguesa, de forma a estimular o nosso comércio e a produção de produtos nacionais de qualidade. E no mundo dos livros, sabem que existem negócios que merecem o nosso apoio por estarem a produzir coisas com qualidade, originalidade e que dizem respeito ao que tanto gostamos: livros e literatura? É sobre alguns deles que vos escrevo hoje. Porque se apostarmos neles, estamos ajudar as pessoas e os seus negócios a crescer, a incentivar a que mais pessoas arrisquem na compra destes produtos e para que este mercado evolua e mais pessoas tenham consciência de que ele existe. 

    Não, não estou a ser paga para divulgar os negócios aqui listados. Estou a fazê-lo por iniciativa própria e porque acho que mais pessoas devem conhecê-los. Comprem o que é nacional. Apostem nestas pessoas criativas e nas suas artes, nos seus negócios, e acabem por ganhar acessórios à vossa leitura, aos vossos livros e à vossa vida de leitores que são originais e de qualidade. Mas chega de bla, bla, bla e vamos ao que interessa!



    Ana Reis - Powered By Books 
    (Agendas e Planificadores)

    A Ana Reis é uma contadora de histórias e autora portuguesa. Tem um blog onde vai partilhando algumas dicas para autores, mas também posts sobre criatividade, produtividade e organização. Este ano, a Ana começou a criar também agendas e planificadores dirigidos a vários interesses, um deles: a leitura. Eu comprei dois planificadores à Ana: um como agenda para o blog, onde posso planear posts, presença nas redes sociais, etc.; e outro para registar as minhas leituras para o ano que vem (uma vez que, para este ano, já tinha outra agenda). Há capas para vários gostos e agendas dedicados a várias outras coisas, por isso convido-vos a espreitarem o site dela! Lá podem ver como são os cadernos por dentro também.

    Helena Magalhães - Book Gang e Magapaper 
    (Subscrição de Box Literária + Agendas, Diários e outros)

    A Helena Magalhães é uma verdadeira empreendedora e, por isso, tem dois negócios. O primeiro, Book Gang, trata-se de uma box literária com livros diferentes cada mês que o leitor subscreve e recebe em sua casa, com mais alguns miminhos. Claro que podem comprar os livros a vulso, de caixas anteriores, mas para saberem tudo, podem ir ao site que lá têm toda a informação sobre esta caixa de subscrição.

    Para além desta caixa literária, a Helena gere também o Magapaper, onde podem encontrar agendas, diários, cadernos e alguns artigos de vestuário, como t-shirts e sacos dentro desta temática. É só lá irem dar uma vista de olhos.

    Inês - Book Chic Boutique
    (Capas protectoras para livros)

    A Inês tem a sua loja online na plataforma Etsy, onde vende capas protectoras para livros, de forma a poderem levar os vossos livros sem o perigo de serem amolgados, dobrados, sujos, molhados, enfim... Todas aquelas coisas que não queremos que nos nossos livros sofram. Eu comprei uma recentemente, podem vê-la na foto acima, com um tecido temático relativo ao Halloween. Mas ela tem muitas escolhas, há praticamente para todos os gostos e recomendo muito! São uma óptima prenda de aniversário ou de natal para vocês ou para alguém que conheçam que adore livros e ler.

    Mafalda Fernandes - Nuts for Paper
    (Vários artigos)

    A Mafalda é designer gráfica e ilustradora, para além de booktuber no canal A Outra Mafalda. É uma pessoa super criativa e que também tem uma loja na Etsy, onde põe em prática a sua arte de ilustradora e designer para criar produtos relacionados com os livros - camisolas, t-shirts, sacos de pano, planificadores, marcadores, pins, blocos de notas... O ideal mesmo é irem à loja e verem com os vossos olhos! Eu já tenho planos de lhe encomendar uma coisa ou duas...

    Bárbara - @olhaoqueeujali
    (Marcadores de livros)

    A Bárbara é uma querida e faz marcadores de livros originais, com citações de livros, filmes, temáticos dependendo das estações, de personagens de livros, com sentido de humor, entre outras categorias. Ela está sempre a partilhar novos marcadores para venda nos stories do Instagram e, por isso, é só contactarem-na através do seu perfil no Instagram. Os marcadores que vêem na foto foram os que encomendei há uns dias e adoro!
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    Em nome do meu projecto pessoal que decidi intitular de Outono Tenebroso, decidi fazer uma série de posts relacionados com o tipo de livros que irei ler durante os próximos tempos, seja em formato de opiniões, recomendações, listas, no âmbito da literatura, do cinema ou da televisão. Se me acompanham pelo Instagram, irei actualizando tudo de forma mais recorrente, havendo um destaque só para esta temática. E decidi, portanto, começar com este tema: o que é a literatura gótica?

    Ora bem, adoro literatura deste género e fiz alguma investigação na faculdade sobre este tema. Quando dei aulas sobre o contexto em que surge a literatura fantástica tinha, inevitavelmente, que falar sobre o Romantismo e o Gótico, visto estarem ambos na génese da Fantasia, e eram das aulas que mais gostava de dar. Mas então, vamos lá descortinar isto e tirar as dúvidas.



    Se formos à origem da palavra "gótico", este termos estava ligado aos Godos, um povo germânico considerado como um dos responsáveis pela queda do Império Romano no século V e, por isso, o termo passou a estar associado a características bárbaras, de conotações negativas, e a palavra "gótico", mais tarde, surge como termo pejorativo para nomear a Idade Média como uma "Idade das Trevas". Assim, já nos séculos XVIII e XIX, o termo gótico passa a aludir à arte e arquitectura góticas, que nasceram durante. o século XII e são típicas da Idade Média; ao próprio período da Idade Média, aqui entendida como uma era bárbara; e ao romance gótico do século XIX.

    As obras de ficção gótica começaram a surgir a partir do fim do século XVIII e foi nesse período que foram publicadas as obras fundadoras do género: The Mysteries of Udolpho (1794) de Ann Radcliffe, The Monk (1796) de Matthew Gregory Lewis, Vathek (1782), de William Beckford, e aquela que é considerada a primeira obra do género: The Castle of Otranto (1764) de Horace Walpole. E é nesta obra que aparecem algumas das convenções que se vão tornar seminais em obras literárias góticas posteriores, como por exemplo: o cenário histórico e arquitectónico reminescente do período medieval, normalmente castelos, mosteiros, abadias, ou outros edifícios que têm uma dimensão considerada antiga e misteriosa; os elementos sobrenaturais ou fantasmagóricos; a atmosfera melancólica; e a exploração da dimensão psicológica das personagens. O ambiente que é criado é sombrio, por vezes opressivo, misterioso e que causa uma hesitação constante por parte do leitor em relação ao que está a ler, colocando a ênfase nas emoções ligada à estética do sublime, de algo que está para lá de nós. Pode levar ao sentimento de horror e medo e é essa a grande marca da literatura gótica. 

    Já no século XIX, a literatura gótica ganhou particular importância e é neste período que surgem obras que são, hoje em dia, considerados expoentes máximos deste género, como Frankenstein, de Mary Shelley, The Picture of Dorian Gray, de Oscar Wilde, Dracula, de Bram Stoker e The Turn of the Screw, de Henry James. Destaque, ainda, para o francês Gaston Leroux, que escreve O Fantasma da Ópera, entre 1908 e 1910 (leiam o livro e esqueçam o filme). É nesta altura que surgem os vampiros na literatura, tendo a primeira obra vampiresca sido The Vampyre (1819), de Polidori, sendo esta considerada a precursora da literatura de vampiros. Se querem vampiros dos originais é aqui que os encontram, tanto na obra de Stoker, Polidori, mas também em Carmilla, de Sheridan Le Fanu. Já na esfera da cultura americana, o grande autor de literatura gótica é Edgar Allan Poe, que se focou mais na dimensão psicológica das suas personagens e respectivas descidas à loucura, como nos contos "The Fall of the House of Usher" e "The Pit and the Pendulum", sem esquecer o seu poema The Raven, publicado em 1845. Por esta dimensão psicológica, o gótico sempre convidou a leituras psicanalíticas, por explorar elementos da psique humana que, até então, não eram mencionados.

    Vale a pena mencionar, ainda, os Penny Dreadfuls. E o que eram? Os penny dreadfuls eram pequenos episódios literários baratos, vendidos por 1 penny, e que contavam histórias de horror ou terror e que saíam todas as semanas. Daí o nome: penny dreadful. Estes contos ficavam-se nos aspectos mais gore de crimes e eventos sobrenaturais, e tiveram grande popularidade a partir de meados do século XIX no seio da sociedade vitoriana.

    Mas atenção: Gótico não significa, necessariamente, Vitoriano e vice-versa. O período vitoriano diz respeito à época do reinado da rainha Vitória, que esteve no trono inglês de 1838 a 1901. O género do gótico surge antes do período Vitoriano, perde alguma importância durante algumas décadas do século XIX e volta a ganhar fulgor nas últimas décadas desse século. Percebo que haja, por vezes, alguma confusão e que ambos sejam considerados sinónimos, mas não são. Existem, ainda, obras produzidas no período Vitoriano, mas que não têm características do gótico, como são o caso de Charles Dickens, Elizabeth Gaskell, George Eliot e William Thackeray. Então e as irmãs Bronte, são literatura gótica? São, sim. Tanto Charlotte como Emily, com Jane Eyre e Wuthering Heights, respectivamente, fizeram uso de convenções góticas nas suas obras e enquadram-se neste género.



    No século XX, este género continuou presente na cultura popular, ainda que tenha sofrido algumas transformações para se adaptar a uma nova realidade, novos públicos e novos meios de divulgação. Neste sentido, começa a haver uma mudança complexa do gótico para o horror e o terror que não dá para ser aqui resumida, uma vez que é bastante complexa, mesmo em termos teóricos. Afinal, há romances góticos que não têm elementos de horror, e nem todas as obras de horror são góticas também. Há, ainda, o terror, que é algo diferente, a que Stephen King, por exemplo, atribui três níveis distintos no que diz respeito aos efeitos provocados no leitor: o primeiro diz respeito à menção a coisas que não são vistas, mas sugeridas, causando desconforto ao leitor; o segundo é o do medo, que pode provocar uma reacção no leitor; e o terceiro é o da repulsa. Houve mudanças históricas também, afinal aquilo que metia medo há 200 anos atrás, já não tem o mesmo efeito nos dias de hoje. 

    No entanto, o que acontece é que muitos dos motivos do romance gótico continuam a ser reavivados, tanto na literatura como no cinema, ora mais próximos das suas origens, ora adaptados para estes tempos que são os nossos. Neste aspecto, há obras contemporâneas que se encaixam neste género, muitas vezes chamado de Neo-Gótico, por recuperarem esses elementos e por inscreverem as suas narrativas em ambientes típicos desta literatura. Assim, têm Rebecca, da Daphne du Maurier, We Have Always Lived in the Castle, de Shirley Jackson, Interview with the Vampire, de Anne Rice e The Woman in Black, de Susan Hill. Se quiserem ir ao sul dos Estados Unidos, têm ainda o subgénero do Southern Gothic, que adopta elementos da literatura gótica mas adapta-os à realidade do sul. Nessas narrativas temos elementos relacionados com a violência, a pobreza, o crime, com cenários grotescos e misteriosos, e que encontram maior expressão em obras de autores como William Faulkner, Harper Lee e Carson McCullers.

    Falta ainda falar do cinema e das séries! Este post nunca mais acaba... 

    Adaptações de obras literárias góticas para o cinema não faltam - desde Dracula, a Frankenstein e Dorian Gray, Rebecca e Entrevista com o Vampiro, há adaptações para todos os gostos e quase todos os períodos. Isto acontece porque as temáticas que abordam são universais e transversais a qualquer época, e sendo a literatura gótica uma literatura transformativa, dá ela própria azo a novas reinterpretações, consoante as ansiedades do período em que uma obra é adaptada.

    Mas há outras obras fílmicas e televisivas que recorrem a estes elementos narrativos e que valem a pena serem vistas. No âmbito do cinema, recomendo várias obras de Tim Burton, mestre nestes ambientes góticos e fantásticos: Sleepy Hollow (1999), adaptação de um conto com o mesmo nome de Washington Irving; Nightmare Before Christmas (1993); Eduardo Mãos de Tesoura (1990); Beetlejuice (1988); A Noiva Cadáver (2005); e Sweeney Todd (2007). Além dos filmes de Burton, têm também Crimson Peak (2015), de Guillermo del Toro; O Corvo (1994), de Alex Proyas; Only Lovers Left Alive (2013), de Jim Jarmusch; The Others (2001), de Alejandro Amenabar; e não podia deixar de lado A Família Addams (1991), de Barry Sonenfeld, que brinca com alguns dos mais usados elementos góticos para narrar a história de uma família excêntrica que não se encaixa no mundo real. Mais virado para o âmbito dos vampiros e lobisomens, têm os clássicos Underworld e Van Helsing. Não são os melhores filmes do mundo, mas para quem gosta de filmes mais virados para a acção, são bons para entreter.


    No reino das séries, gosto muito e recomendo American Horror Story, cujas temporadas têm temáticas diferentes com elementos mais virados para o terror, o gótico ou o horror, em que as minhas temporadas favoritas são: Murder House, Asylum, Coven, Roanoke e Apocalypse. Recomendo, ainda, a série Penny Dreadful, que teve três temporadas, e que é das minhas favoritas da vida. Têm personagens literárias que ganham vida, têm um ambiente vitoriano propício a eventos sobrenaturais, bruxarias, sessões de espiritismo e criaturas monstruosas, e têm também a Eva Green, que é divinal (e vamos não falar no guarda roupa, porque quero as roupas todas da Eva Green!). 

    Haverá muitas mais séries, filmes e livros que certamente serão fantásticos, mas vou cingir-me àquilo que conheço, que gosto e, por isso, me sinto confortável a dar a conhecer e a recomendar. Espero que tenha conseguido despertar o vosso interesse por este género e que se embrenhem na literatura gótica, tal como eu o farei nas próximas semanas!

    Se quiserem pesquisar mais sobre estas temáticas, recomendo-vos dois livros académicos bastante bons e que traçam um percurso do gótico desde o início até agora, analisando as principais características deste género e as suas mutações. São eles: A New Companion to the Gothic, de David Punter (2012), e The Cambridge Companion to the Gothic, de Jerrold E. Hogle (2002).
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    Como assim faltam três meses para o fim do ano???

    Setembro foi um mês mexido a nível profissional, para mim, mas não foi por isso que deixei de ter livros debaixo de olho! Por isso, ficam aqui os livros que estiveram no meu radar este mês


    The Invention of Murder, de Judith Flanders - Eu adoro livros, filmes, documentários sobre crimes e investigação criminal. O século XIX é dos meus períodos favoritos e quando falamos do período vitoriano, o meu coração está totalmente lá. Este livro explora como a sociedade vitoriana se deixou fascinar pelos crimes mais horrendos cometidos no período, como isso se tornou quase numa forma de entretenimento e como tudo isto deu origem à ficção detetivesca.

    Anatomia dos Mártires, de João Tordo - Este ano estreei-me a ler João Tordo e deparei-me com este livro dele cujo enredo gira à volta de uma investigação jornalística sobre Catarina Eufêmia, uma mulher que se tornou num ícone da luta contra o regime antifascista.

    The Death of Mrs. Westaway, de Ruth Ware - Mais um livro de crime e mistério, bastante atmosférico e mais do que apropriado para estes meses de Outono em que se adoro ler livros destes. Já ouvi falar muito bem sobre os livros desta autora e decidi começar por este. Já o tenho em versão e-book.

    The Rage of Dragons, de Evan Winter - Depois de ter visto a Filipa e a Merphy Napier a falarem tão bem deste livro, resolvi adicioná-lo à minha lista também. Parece ser um livro de fantasia mesmo como eu gosto e confio nas opiniões de ambas.

    The Midnight Library, de Matt Haig - Ando há imenso tempo para ler os livros deste autor, já tenho três na minha lista de desejos e não há maneira de o começar a ler! Este livro parece-me ter uma premissa muito boa, uma vez que fala sobre livros e sobre histórias.

    The Doll Factory, de Elizabeth MacNeal - Mais um livro que se passa no período vitoriano, que tem como pano de fundo a Grande Exposição de 1850 e que tem elementos de ficção histórica, mistério e num ambiente gótico.

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