7 de setembro de 2009

Night - Opinião


Acabei de ler este livro hoje e acho que foi o único que, após virar a última página, fiquei com pele de galinha. Night é um testemunho tremendo daquilo que Elie Wiesel viveu nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.
Wiesel, que perdeu a sua fé em Deus durante este período, fez um voto de silêncio sobre esta experiência e, ao fim de dez anos, escreveu a sua história em Yiddish (dialecto proveniente do alto alemão de origem judaica). Todo o procedimento da publicação destas suas memórias é descrito num prefácio escrito pelo próprio autor em que este descreve as suas dúvidas quanto à sua escrita, as dificuldades por que passou, os problemas linguísticos até chegar à sua publicação. Esta obra tornou-se, juntamente com Diário de Anne Frank e Se Isto é um Homem, de Primo Levi, um dos pilares da literatura sobre o Holocausto.

Sendo narrado na primeira pessoa e escrito depois dos acontecimentos em causa, a sua escrita parece estilhaçada, fragmentada, com alterações de pontos de vista, como se fossem pensamentos que se atropelam na memória para ver qual é que chega primeiro ao papel.
Nestas poucas mais de 120 páginas, é-nos então contada a experiência de Elie, enquanto adolescente de 15 anos, idade em que foi deportado juntamente com a sua família para um campo de concentração em 1944. Nada mais, nada menos que Auschwitz. Posteriormente, com a aproximação da frente de batalha é deportado com o seu pai para Buchenwald onde permanece até à libertação do campo em 1945.
Á medida que os dias vão passando, as noites, os meses, podemos assistir ao decair da sua crença na religião, no próprio homem, e ao emergir do instinto de sobrevivência que leva todos a ter comportamentos tão desprovidos de humanidade. Já não importa quem está ao lado de quem, pode ser o pai, irmão, amigo, o que interessa é a sobrevivência de cada um. Cada um tem que se safar como puder. E se isso significa conseguir tirar um pedaço de pão da boca de outra pessoa, era isso que se fazia. Há inclusive uma frase de um dos comandos no campo que lhe diz: "Here there are no fathers, no brothers, no friends. Everyone lives and dies for himself alone."

É um livro chocante a nível emocional e humano, não só pelas óbvias atrocidades que foram cometidas durante esta época, mas também pelo facto de que perante condições extremas com que somos confrontados o homem perde a sua humanidade para poder sobreviver. E é isto que é chocante. Por vezes não se podia ajudar o amigo que estava ao nosso lado, ou atender aos pedidos de um pai moribundo, só para que se pudesse sobreviver mais um dia. Já não se chorava, não se sentia pena, não havia choque pelas tantas coisas que testemunharam, já não queriam saber dos mortos porque eles tinham que se manter vivos. As emoções congelaram.
Mesmo lendo este estremecedor testemunho é impossível ter sequer um vislumbre, um ínfimo entendimento sobre as coisas, sobre o que se tornou a vida para os que sobreviveram. Talvez um fardo.

O fim do livro é o discurso que Elie Wiesel fez quando aceitou o Nobel da Paz, em 1986. Um discurso belíssimo. E se este livro nos marca também pela sua escrita, pelas suas frases marcantes e profundas, transcrevo aqui uma do seu discurso que, apesar de concisa, espelha bem o sentido deste livro:

"Because if we forget, we are guilty, we are accomplices."

1 comentário:

Jacqueline' disse...

Este livro parece-me muito interessante. A segunda guerra mundial é uma das epocas que dá excelentes livros... Espero lê-lo brevemente!