27 de julho de 2014

O Evangelho do Enforcado - Opinião

Título: O Evangelho do Enforcado
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 365
Sinopse:
"Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal. 
Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. Pleno de descrições vívidas como pinturas, torna-se numa viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens."

Opinião:

Parti para esta leitura com muita curiosidade porque nunca li nada do David Soares (a bem da verdade, até comecei a ler A Conspiração dos Antepassados, mas não terminei na altura porque não tinha tempo...) e porque este livro tinha uma premissa muito interessante: desvendar um pouco do mistério que são os Painéis de São Vicente.

A primeira coisa que tenho a dizer sobre este livro é que é notável a quantidade de investigação que o autor fez para conseguir pintar um retrato tão fiel de Lisboa no século XV, bem como das suas gentes, do seu quotidiano e crenças. Além de Lisboa, temos também a descrição da corte dessa altura, com as suas intrigas e obscuridades, uma figura tão misteriosa e complexa como Nuno Gonçalves e imensos detalhes relativos a técnicas de pintura da época. Para quem gosta de ficção histórica, o livro está muito bem escrito e tudo ganha vida, uma vez que todas as personagens históricas estão muito bem construídas e tudo é muito coeso.

Para além da parte histórica, temos uma componente de fantasia e horror de que, pessoalmente, gostei muito. Há cenas um pouco "gore", mais fortes, mas achei que encaixava na perfeição com a personalidade que o autor queria criar para Nuno Gonçalves, o possível autor dos Painéis. Nuno é um homem que teve uma infância peculiar, com a constante presença de uma figura misteriosa chamada Geronte, e que cresce com tendências necrófilas e assassinas. Contudo, Nuno consegue vingar como pintor e acaba por pintar a sua, talvez, obra-prima: os Painéis de São Vicente.

Assim, David Soares utiliza as intrigas políticas, os podres, os interesses pessoais de cada um, da corte da chamada Ínclita Geração, para descortinar possíveis significados nos Painéis pintados por Nuno. E através dessas descrições, muitas ideias pré-concebidas caem por terra, nomeadamente em relação à personalidade do Infante D. Henrique que, parece-me a mim, estabelece um paralelismo com Nuno Gonçalves: são ambos vilões em duas esferas sociais diferentes.

Posto isto, gostei bastante do livro pelo detalhe histórico e por pegar em figuras históricas e tirá-las dos respectivos pedestais. Gostei de conhecer a Lisboa da época, os meandros da corte portuguesa, gostei do tom negro de algumas passagens. Mas o grande trunfo é Nuno Gonçalves e todo o enigma que ele representa. O livro está carregado de simbolismos, misticismo, de referências à alquimia, que dão um outro sabor à narrativa e Nuno Gonçalves está no centro de tudo. Mesmo que não se perceba todas as referências, elas só enriquecem o texto e o leitor, e tornam tudo muito mais interessante.

5/6 - Muito Bom 

(Esta leitura conta para os desafios TBR Pile Reading Challenge e para o Monthly Keyword Challenge)

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