21 de fevereiro de 2015

O Último Cabalista de Lisboa - Opinião

Título: O Último Cabalista de Lisboa
Autor: Richard Zimmler
Editora: Leya
Páginas: 414
Sinopse:
"Em Abril de 1506, durante as celebrações da Páscoa, cerca de dois mil cristãos-novos foram mortos num progrom em Lisboa e os seus corpos queimados no Rossio. O Último Cabalista de Lisboa, best-seller em onze países, incluindo os Estados Unidos da América, Inglaterra, Itália, Brasil e Portugal, é um extraordinário romance histórico tendo como pano de fundo os eventos verídicos desse mês de Abril de 1506."

Opinião:

Demorou o seu tempo mas lá terminei este livro! Não é que seja um livro muito longo nem sequer é complicado, mas houve alturas em que andava cansada e sem cabeça para ler e, por isso, a leitura foi mais lenta. Mas quando pegava no livro sentia-me agarrada às suas páginas e à história que Zimmler conta, embora tivesse expectativas diferentes em relação a este livro.

Berequias Zarco é o protagonista deste livro. Um jovem judeu que teve que se converter ao cristianismo, tal como toda a sua família e outros judeus, cristãos-novos, que fazem parte da vida de Berequias. Porém, apesar da conversão forçada, todos continuam a praticar os rituais do judaísmo, a estudar a Tora, a Cabalah, a obedecer aos ensinamentos da sua religião. Tudo se passa na cidade de Lisboa, no início do século XVI, mais precisamente em 1506, ao longo de poucos dias. Lisboa experiencia um período de seca extrema, para além de fome e peste, e, como se adivinha, os judeus são o bode expiatório desta crise, o que leva ao grande massacre de judeus nesse ano, em Lisboa.

Confesso que não sabia que tal massacre tinha acontecido. É algo que não vem nos livros de história, que foi registado por muito poucas pessoas e esses registos já o são de uma época posterior. Ainda assim, foi um acontecimento verídico e no Largo de São Domingos, perto do Rossio, existe um monumento em homenagem àqueles que perderam a vida nesse massacre. Uma das coisas que me marcou neste livro é que vou olhar para o Rossio de forma diferente.

Confesso que o Judaísmo é uma religião que me suscita muita curiosidade e este foi mais um livro que me permitiu ter um olhar sobre os seus rituais, a sua maneira de pensar e de viver a vida. Neste sentido gostei bastante, até pelo misticismo que está associado à Cabalah e pelas visões de Berequias, que faz dele alguém que experiencia e descodifica a vida através de um código de símbolos associados à Tora. Berequias é, ainda, um jovem que anda no encalço do assassino do seu tio, o mestre Abrãao, que fora morto em circunstâncias misteriosas no meio de todos os tumultos e do massacre dos judeus. Ele é determinado, audaz, com sabedoria para além da sua idade e que não descansa enquanto não vingar a morte do tio. Gostei muito de Berequias e do seu amigo muçulmano Farid.

Gostei muito de andar pela Lisboa daquele tempo e de tentar imaginar como seria Alfama, a Mouraria, o Rossio. Zimler faz um retrato muito bom de como seria a cidade no século XVI e consegui sentir-me lá. Gostei da escrita do autor também, que é simples e directa, sem grandes floreados e a narração na primeira pessoa acaba por nos dar acesso à mente do protagonista, algo de que gosto bastante.

O que deixou este livro um pouco àquem do que eu estava à espera foi da temática em si. E a culpa não é do livro! É minha, porque pensava que ia ler uma coisa e afinal deparei-me com outra. Julguei que o livro retratasse o antes, o durante e o depois do massacre e como aquela família de judeus sobreviveu e se adaptou a partir daí. Porém, o livro é quase um policial. Berequias depara-se com a morte do tio, analisa o local do crime, encontra pistas, vai interrogando pessoas, restituindo os últimos momentos da vida do seu tio, passando por aventuras e apertos, até descobrir o assassino. Claro que no meio disto podemos vivenciar o clima de medo e desconfiança de qualquer pessoa que fosse judia e que se atrevesse a circular na rua. Temos descrições de fumo no céu de Lisboa, do cheiro a carne queimada, de torturas, da perseguição por parte dos cristãos e dos frades dominicanos e de como aquela gente foge e se tenta salvar com os meios disponíveis. Mas o livro é quase um C.S.I. à século XVI com o contexto destes dias terríveis durante os quais durou a matança de milhares de judeus.

No entanto, é um bom livro. Gostei das personagens, do contexto histórico, da escrita do autor e do enredo. Recomendo a quem tenha curiosidade sobre a religião, o modo de vida e as crenças do judeus (há um glossário no início com os termos em hebraico usados no livro) e que goste de um bom mistério para ser resolvido.

4/6 - Bom

(Esta leitura conta para o desafio Mount TBR Reading Challenge)

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