5 de outubro de 2011

Cantinho dos Escritores - Sir Thomas Malory

Já é o quarto texto que publico sobre escritores. Por isso, decidi que isto tinha que ser tornado numa rubrica própria e com uma "tag" decente, em vez de andar perdido nos textos das "curiosidades"! Desta vez, o autor escolhido é Sir Thomas Malory.

Thomas Malory terá nascido por volta de 1405 e morreu a 14 de Março de 1471, mas os seus anos de juventude são algo obscuros porque não se sabe muito acerca dele. Terá, porventura, lutado em França, nos últimos anos da Guerra dos Cem Anos e a primeira vez que se vê o seu nome em registos, é no ano de 1439, tendo sido feito cavaleiro em 1441. Depois disso, terá vivido uma vida pacata, de homem responsável na pequena nobreza e, até membro do Parlamento. Porém, por volta da década de 50, a sua vida terá sido tudo menos cavaleiresca, envolvendo-se em vários crimes e, até, vivendo alguns períodos em prisão. Terá sido aí, inclusive, que Malory escreveu a sua maior e única obra: Le Morte Darthur, completando-a entre 1469-70.

Contudo, é de estranhar o contraste entre a vida de Malory, ordenado cavaleiro mas vivendo uma vida de crime, e a escrita de uma obra onde os ideais de cavalaria, de nobreza, de amor cortês são tão exaltados. Por estes motivos, houve algumas tentativas de reatribuir a autoria de Le Morte Darthur a outro indivíduo, embora nada daí tenha resultado. Para além disso, tentou-se também encontrar outro Malory, nas várias famílias com este apelido em Inglaterra, naquela época, mas também não se chegou a conclusão nenhuma.

Quanto ao período vivido por Malory, o século XV, há que destacar que estamos numa época que faz a transição da Baixa Idade Média para o Renascimento que, em Inglaterra, se começou a notar em força a partir do século XVI. Nesta altura ainda reinavam os ideais de cavalaria, continuando o culto dos torneios para provar a coragem do cavaleiro perante os seus adversários, para além do amor cortês, uma característica praticamente inerente ao cavaleiro. Por isso, nessa altura houve um florescimento de ordens de cavalaria, uma delas a de Eduardo III, a Ordem da Jarreteira, estabelecida em 1348 (praticamente uma imitação da Távola Redonda do Rei Artur). Esta Ordem dura até hoje e é a mais prestigiada de Inglaterra.
Contudo, também foi uma época de tumulto e agitação, não fosse o século XV o século da Guerra das Rosas, entre as casas de Lancaster e York (cujo resultado foi o início da dinastia Tudor).

 (página do manuscrito de Le Morte Darthur)

Quanto à sua única obra, Le Morte Darthur, esta é uma espécie de compilação de todas as obras que foram escritas sobre o mito do Rei Artur. Reúne uma data de tradições, de personagens e de material que foi escrito sobre ele, ao longo dos tempos, e tornou-se tão emblemática na literatura arturiana por isso mesmo, por entrusar tudo aquilo que fora escrito sobre Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda.
Esta obra foi publicada (se assim se pode dizer), pela primeira vez em 1485 por William Caxton e tornou-se na obra mais conhecida da literatura arturiana inglesa. Esta obra faz parte do Winchester Manuscript e, como a obra está dividida, por sua vez, em vários livros, julga-se que Malory terá escrito histórias em separado que, posteriormente, foram unidas e publicadas como um todo por Caxton.

Le Morte Darthur está disponível tanto em Inglês Médio, como foi escrito no original, como traduzida para Inglês Moderno. Posso-vos aconselhar, para quem estiver curioso, a edição da Oxford Classics que conta com uma introdução sobre o autor, a obra, o mundo arturiano e ainda inclui uma lista de bibliografia crítica. Le Morte Darthur também serviu de inspiração e terá sido a fonte principal de obras como Idylls of the King, de Alfred Tennyson e The Once and Future King, de T. H. White. O filme Excalibur, de John Boorman (1981) também se inspirou em alguns episódios da obra de Malory.

(obrigado à WhiteLady3 pela ideia!)

10 comentários:

WhiteLady3 disse...

Adoro os teus textos sobre os autores! Sumarizas tão bem e dás a conhecer tanto sobre eles! Não fazia ideia de que Thomas Malory tinha sido um criminoso. A audácia de escrever sobre ideais de cavalaria! xD

Presumo então que as histórias de Artur fossem passadas de boca em boca, talvez por trovadores, e que Malory, à semelhança de Homero, apenas as colocou por escrito.

Diana disse...

Ainda bem que gostaste! Eu acho sempre que tenho alguma dificuldade em fazer resumos, mas pelos vistos a coisa até corre bem! :D

As histórias de Artur têm raízes celtas e, como na altura não havia escrita, muito fazia parte da tradição oral que, mais tarde, foi posta para pergaminhos pelos monges. Só que a lenda desenvolveu-se, verdadeiramente, em França e não em Inglaterra, por causa das migrações dos celtas para a Bretanha francesa, durante as invasões dos povos nórdicos.
Por isso, foi na corte de França que houve um desenvolvimento da lenda e Chrétien de Troyes é o autor da maior parte dos romances arturianos. Depois a lenda volta a Inglaterra e aí temos o Malory e, antes dele, o Sir Gawain and the Green Knight.

WhiteLady3 disse...

Estou sempre a aprender. :D

WhiteLady3 disse...

E ainda falando em Sir Gawain and the Green Knight, acho que já ouvi o conto (na voz do Sean Bean!). Tenho de ir à procura dele outra vez, na altura pareceu-me uma abridged version. :/

Diana disse...

Elá!! Sean Bean a ler o Sir Gawain and the Green Knight? Isso não sabia! :D
Mas também li esse, em inglês moderno e gostei bastante :) http://papeiseletras.blogspot.com/2010/09/sir-gawain-and-green-knight-opiniao.html

WhiteLady3 disse...

Acho que foi isto. :D

Diana disse...

Hum... tenho que ir ver isso! :D Thanks

Laura disse...

Isto foi das coisas mais interessantes da minha semana (não estou a brincar). A leitura em inglês moderno é difícil?

Diana disse...

Ainda bem que gostaste Laura! :D
Eu não achei difícil a leitura para inglês moderno, está tudo bastante claro.
Como a tradução da Oxford Classics, que é a que eu tenho, se aproxima mais do manuscrito em termos de estilo da narrativa, algumas expressões que possam não ser muito claras têm notas de rodapé e glossário no fim do livro.

Laura disse...

Ah, okay! Tenho de dar uma vistinha de olhos, então :) obrigada!