4 de junho de 2014

Os Jovens e a Leitura

Cada vez que vejo pessoas a deitar as mãos à cabeça com notícias do género "Jovens lêem cada vez menos", percebo-lhes a aflição, mas não lhes percebo o espanto.

Numa cultura que é cada vez mais visual, mais ligada à tecnologia e às redes sociais, é claro que alguma coisa que vai ficar para trás. E isso é o quê? A leitura. Penso que a criação de e-readers e de tablets pode ajudar com que os jovens se interessem mais pela leitura, pelo facto de poderem ler num gadget mas se, ainda assim, não forem estimulados para a leitura, eles não vão ler.

Eu lembro-me que sempre tive curiosidade em relação aos livros. Mesmo quando não sabia ler, lembro-me de folhear livros nem que fosse para ver as imagens, os desenhos, as fotografias. Mas isso também aconteceu porque os meus pais sempre leram e sempre houve livros em casa à nossa disposição. Lembro-me de que quando comecei a aprender a ler, também comecei a pegar em livros sem "bonecos". E ao olhar para eles pensava "Tantas letras! Não percebo nada disto... Quando for grande quero perceber e ler estas letras todas como os meus pais". Sempre houve o estímulo da leitura cá em casa. Começámos pelas bandas desenhadas, depois os livros infanto-juvenis e por aí adiante. Cá em casa todos lemos, embora seja eu quem leia mais. Na escola também tive alguns professores que incentivavam à leitura tanto pelo género de textos dados nas aulas, como para o fazermos nos tempos livres.

Mas o que eu penso em relação a estes jovens que lêem cada vez menos é isto: provavelmente não os incentivaram em casa, provavelmente não leram nenhum livro que fosse mesmo à sua medida, se calhar não encontraram o género literário que gostam, se calhar acham que a leitura é uma seca quando comparado com os filmes, os jogos, ou duas horas à frente do facebook. Não temos uma cultura que instigue a leitura. Com horários escolares tão preenchidos e com tantos trabalhos para fazerem depois das aulas, o que eles querem é distância de livros. Uma hora em frente ao computador ou à televisão é bem mais fácil. Um jovem não consegue ir a uma livraria comprar um livro que custa quase 20 euros. Há miúdos com dois anos que já têm tablets. Crianças com seis anos com iphones. Somos cada vez mais bombardeados com alternativas que parecem muito mais excitantes do que passar uma tarde a ler um livro. Pfff... que desperdício de tempo! A leitura é porque temos que a fazer, na escola.

Acho que neste campo os pais têm um grande papel nisto, se querem que os filhos tenham hábitos de leitura. Limitar as horas no computador, na televisão, no tablet, na playstation... "Ai coitados dos miúdos" Coitados porquê? Os meus pais faziam isto e nós não morremos. Obrigar a imaginação a funcionar e inventar brincadeiras, quando são pequenos. Ajudá-los a ganhar curiosidade com os livros que estão na prateleira e ver os pais a entrar numa livraria, a explorá-la, a comprar livros e a lê-los, vai ter impacto nos mais novos. Mostrar-lhes que há histórias, há outros mundos, há personagens aos quais nos podemos apegar e com as quais nos identificamos, que os livros nos fazem companhia. Ler os livros com eles, fazer-lhes perguntas, interessar-se por aquilo que estão a fazer. Desde cedo habituá-los aos livros penso que só ia ser benéfico. É claro que pode fazer-se isto tudo e, no fim, a criança/jovem não gostar mesmo de ler. Mas isso aí já parte do gosto de cada um depois de se tentar convencê-lo.

Com este texto não venho para aqui dizer que todos temos que fazer isto e que o que eu digo é lei, nem venho criticar ou julgar ninguém. É uma opinião minha, depois de ter ouvido exclamações por causa da ausência de hábitos de leitura nas crianças e nos jovens. Claro que a leitura estimula a nossa imaginação, a nossa capacidade de pensar, de questionar, de expansão de vocabulário. Todas estas características são importantes na formação de uma pessoa. Contudo, não me espanta quando somos todos bombardeados com vários objectos electrónicos e plataformas digitais que parecem muito mais aliciantes, com movimento e cores e efeitos especiais, quando comparado com um livro, denso, cheio de palavras e que vai exigir uma concentração maior. 

Se há coisa que pode matar os livros é isto: falta de gente que lhes pegue. Não são os tablets e os e-readers.

2 comentários:

Célia disse...

Concordo em grau e género :)

Neptuno_avista disse...

O quanto concordo contigo. É realmente uma pena o que se passa na realidade e nota-se bastante nos miúdos que não sabem coordenar frases, cujo vocabulário podia ser bem mais extenso... :/