J. R. R. Tolkien: Para além da Fantasia

agosto 06, 2021


J.R.R. Tolkien é considerado um dos pais da Fantasia épica contemporânea. As suas obras influenciaram vários autores posteriores e ainda hoje são referência tanto para leitores como autores. É inegável o seu contributo para a Fantasia, com obras que são hoje considerados pilares deste género, como O Hobbit, O Senhor dos Anéis e Silmarillion. Mas conhecem o Tolkien para além das obras de Fantasia que publicou e o quanto, de alguma forma, influenciaram também as suas próprias obras de Fantasia? É disso que vos falo hoje aqui e no podcast, sendo que no blog condenso mais a informação. Podem encontrar uma versão mais extensa e pormenorizada no podcast.


TOLKIEN E A LITERATURA MEDIEVAL

  • BEOWULF

Tolkien, além de autor de Fantasia, foi um académico. Professor em Oxford e filólogo, ou seja, um estudioso de línguas e dos manuscritos em que elas se encontram registadas. Tolkien tinha particular predileção por anglo-saxónico, tendo um amplo conhecimento sobre esta língua, tendo sido professor de anglo-saxónico. E é precisamente por aqui que começamos. 

Uma das mais importantes obras escritas nesta língua é Beowulf, um poema épico cujo único manuscrito sobrevivente data do século X, mas cuja história é anterior, talvez do século VIII. Durante muitos anos encarado como um documento histórico do qual se podia saber mais sobre a cultura anglo-saxónica, passou a ser visto e analisado como uma obra literária de valor a partir do momento em que Tolkien dá uma palestra que se transformou num dos ensaios mais importantes para quem estuda a obra: "Beowulf: The monsters and the critics" (1936). Pela primeira vez, Beowulf é encarado como uma obra de valor literário na qual os monstros assumem papéis preponderantes e são centrais para o desenvolvimento da narrativa e para o herói. Mais tarde, nas suas cartas, Tolkien assume que um dos episódios da obra, a do roubo de um artigo de um tesouro guardado por um dragão, lhe serviu de inspiração para escrever um episódio muito semelhante em O Hobbit (1937).

Durante os anos 20 do século XX, Tolkien começou a traduzir Beowulf, mas a sua tradução nunca chegou a ser publicada, até mais recentemente. Em 2014 foi publicada a sua tradução, juntamente com notas, comentário e ainda Sellic Spell, um texto curto em prosa escrito por Tolkien que tenta reconstruir o conto popular mencionado nas primeira mil linhas de Beowulf.


  • SIR GAWAIN AND THE GREEN KNIGHT

Tolkien era um profundo conhecedor da cultura e da literatura medievais e, por isso, não é de estranhar que tenha traduzido algumas das obras mais relevantes da literatura medieval inglesa. Além de Beowulf, traduziu ainda o lai bretão do século XIII Sir Orfeo, um manual monástico do mesmo século Guia das Anacoretas (Ancrene Wisse), o poema Pearl e o romance arturiano Sir Gawain and the Green Knight, ambos presentes no mesmo manuscrito do século XIV.

Sir Gawain and the Green Knight é um romance arturiano em verso aliterativo e em inglês médio, não se sabendo quem o escreveu. Este é um dos romances arturianos mais importantes que resgata o cavaleiro Gawain como o grande herói arturiano inglês, num período em que os romances arturianos se estavam a desenvolver maioritariamente em França, sendo Galahad o seu maior herói. Galahad é um herói cristão, enquanto Gawain tem raízes pagãs, por isso este último foi relegado para um papel bastante secundário. Com Sir Gawain and the Green Knight, Gawain ganha novo fôlego e importância como herói arturiano.

A relação de Tolkien com este poema durou praticamente toda a sua vida académica, sendo dele e de E.V. Gordon a edição standard do poema que normalmente é considerada no estudos medievais. Sendo um poema altamente simbólico, recupera elementos mais antigos que remetem para o mundo dos contos de fadas, algo que Tolkien considerava que Sir Gawain era: um mundo fantástico no qual símbolos e crenças mais antigas estão presentes.


TOLKIEN: TEÓRICO DA FANTASIA

E aqui chegamos à Fantasia.

Tolkien foi influenciado por estas obras medievais, mas também pelas mitologias e culturas respectivas. Por isso, não é surpreendente que as suas principais obras tenham adquirido estas mesmas influências, ainda que não haja referências directas. Para além de todo este conhecimento, Tolkien é o primeiro autor a pensar sobre o género da Fantasia através de uma palestra tornada ensaio, "On Fairy-Stories" (1947). Neste ensaio, Tolkien discorre sobre os contos de fadas como forma literária e sobre a Fantasia como a maior e mais pura forma de arte e criação. É ele que, então, teoriza sobre a Fantasia pela primeira vez e fala em conceitos fulcrais como Sub-criação, Mundo Secundário, Eucatástrofe, e ainda distingue Escape de Escapismo. Neste ensaio, Tolkien explica e defende a Fantasia como arte criativa onde se unem a imaginação e o acto da sub-criação, bem como o facto de ela oferecer um meio para aquilo que o autor chama de Recuperação, Escape e Consolação.

O ensaio "On Fairy-Stories" ainda hoje é estudado e tido como um dos mais importantes para o estudo da literatura de Fantasia, tornando Tolkien não só no pai da literatura fantástica contemporânea, como também o pai dos estudos sobre Fantasia. É ele que legitima a Fantasia como um género sério, com valor literário, que não está restrito a um público infantil, que não é escapista e que pensa sobre questões universais e importantes para o ser humano.

Com este post, quis mostrar-vos a importância de Tolkien para a Fantasia para além das suas obras literárias: como estudioso da literatura e cultura medieval, facto que fez com que as suas obras adquirissem um molde medievalista que se veio a perpetuar em obras de Fantasia posteriores; e como teórico da Fantasia, tendo sido dos primeiros a pensar criticamente sobre o género, conferindo-lhe valor e legitimidade literária. Espero que tenham gostado e que vos tenha suscitado curiosidade para saberem mais sobre Tolkien, para além das suas obras literárias. 

Ficam aqui, ainda, as obras mencionadas e outras que vos possam interessar:

J. R. R. Tolkien: A Biography. Humphrey Carpenter, 2016.
The Letters of J. R. R. Tolkien. Humphrey Carpenter, 2005.
Tolkien and the Great War: The Threshold of Middle-Earth. John Garth, 2004.
The Monsters and the Critics and Other Essays. J. R. R. Tolkien, 2006.
Sir Gawain and the Green Knight, with Pearl and Sir Orfeo. J. R. R. Tolkien, 2021.
Beowulf: A Translation and Commentary. J. R. R. Tolkien, 2014.

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