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    Podem também ouvir a minha opinião no podcast, AQUI.

    Parti para esta leitura com algumas expectativas: por um lado, já conhecia a escrita de Madeline Miller, uma vez que li Circe o ano passado; por outro lado, a história de Aquiles e Pátroclo não me era desconhecida, uma vez que a autora recria aqui a história de ambos, baseada na mitologia grega. Tal como acontece com Circe, não precisam de saber nada sobre mitologia grega para partirem para esta leitura. Não precisam de saber sobre os deuses, nem sobre os principais intervenientes nesta história, porque tudo vos vai sendo contado à medida que a história vai progredindo. Por isso, podem ir para a leitura deste livro sem medos.

    Neste livro é-nos, então, apresentada a história de Aquiles e Pátroclo, sendo que o livro é narrado pelo ponto de vista de Pátroclo. Na mitologia grega, Aquiles é um dos principais heróis da Ilíada, bem como um semi-deus, lutando na Guerra de Tróia do lado dos gregos. É um homem belo, destacando-se o seu cabelo louro, forte, corajoso e destemido, cuja profecia dita que será o melhor guerreiro e herói de sempre.  Pátroclo é o oposto: tímido, introvertido, que não tem a mínima tendência para as artes da guerra, e o seu físico não arranja suspiros a ninguém. Contudo, a vida destes dois homens acaba por estar irrevogavelmente entrelaçada desde o momento em que se conhecem, ainda em miúdos, até ao momento das suas mortes. Sabendo o que acontece, na mitologia grega, o desfecho deste livro não é surpreendente, afinal a autora tem a sua liberdade para contar a história de ambos, mas nos factores determinantes das suas histórias só poderá fazê-lo até um certo ponto. De qualquer forma, é uma história muito bem tecida e contada, de uma extrema sensibilidade e que aborda algumas questões importantes.

    Uma das primeiras é o facto de a autora transformar este herói guerreiro épico quase num herói romântico. A especulação sobre a relação entre Pátroclo e Aquiles existe há muito e na cultura da Grécia clássica seria até aceite que fossem amantes. Aqui, essa especulação é tornada realidade e ambos desenvolvem uma relação bastante sólida, íntima e de compromisso mútuo. Ambos se amam e nada é possível contra esse amor. Neste aspecto, gostei muito de ver o desenvolvimento este sentimento entre os dois, desde rapazes e à medida que os vemos crescer e cimentar a sua relação apesar de todos os desafios que enfrentam. Por vezes, senti que alguns aspectos do romance eram problemáticos, nomeadamente em relação a algumas atitudes de Aquiles e à submissão de Pátroclo.

    Outra questão abordada aqui é o da masculinidade e da atribuição dos papéis tradicionalmente masculinos. Por um lado, temos Aquiles um semi-deus que nasceu para ser o melhor dos guerreiros e heróis da Grécia. Um guerreiro destemido, bravo que, no contexto da Guerra de Tróia, brilha e se alimenta não só da ferocidade da batalha, como também da glória que aí advém e da admiração dos outros. Aquiles é quase uma máquina de guerra, que mata sem misericórdia, que é orgulhoso e vingativo, capaz dos maiores actos de fúria. Já Pátroclo, não tem a mínima aptidão para guerrear e tem plena consciência disso. Há, por isso, um questionamento sobre a ligação do homem à guerra, ao confronto que exige destreza e força física que nem todos têm. Aquiles parece a epítome da masculinidade, agradando a mulheres com a sua beleza, e a homens por ser um exemplo de bravura a emular, incorporando todos esses valores associados aos heróis, mas nem todos os homens são assim. Se são menos homens por causa disso? Não são. E é precisamente através da sensibilidade e da natureza mais diplomática de Pátroclo que estas questões são expostas.

    Gostei bastante deste livro pela escrita de Madeline Miller, escrita essa que já conhecia por ter lido Circe. É uma escrita cuidada, sensível e pormenorizada, que expõe o melhor lado de Aquiles, que se revela na relação que tem com Pátroclo. Pátroclo tempera a personalidade de Aquiles com aquilo que de melhor pode existir no ser humano e ambos complementam-se. É uma história de amor muito bonita e tocante, principalmente na fase final da Guerra de Tróia e que confere um novo tom à história do grande guerreiro Aquiles, temido por tantos e amado profundamente até ao fim, por Pátroclo.

    Em Portugal, este livro encontra-se traduzido e publicado pela Bertrand, com o título O Canto de Aquiles.


    5/6 - Muito Bom



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    ______________

    Detalhes

    Editora: Bloomsbury
    Páginas: 352
    Sinopse:
    "Greece in the age of heroes. Patroclus, an awkward young prince, has been exiled to the court of King Peleus and his perfect son Achilles. Despite their differences, Achilles befriends the shamed prince, and as they grow into young men skilled in the arts of war and medicine, their bond blossoms into something deeper - despite the displeasure of Achilles's mother Thetis, a cruel sea goddess. But when word comes that Helen of Sparta has been kidnapped, Achilles must go to war in distant Troy and fulfill his destiny. Torn between love and fear for his friend, Patroclus goes with him, little knowing that the years that follow will test everything they hold dear."
    Continue Reading

    Este livro teve bastante hype quando saiu e fiquei muito curiosa, na altura. Isso aliado à capa belíssima fez com que o levasse para casa e, finalmente, tive a oportunidade de o ler. Foi a minha estreia com esta autora, Madeline Miller, e confesso que adorei a sua escrita. Ela cria esta narrativa baseada na mitologia grega, tanto nas suas personagens como em episódios específicos da mesma, para contar a história de Circe, uma deusa menor, mas uma feiticeira poderosa.

    Através do olhar de Circe, temos o recontar de alguns episódios da mitologia grega e travamos conhecimento com algumas das personagens mais marcantes, desde Prometeu, a Zeus, Ulisses, Dédalo, Medeia, Jasão e o Minotauro, só para dar alguns exemplos. As histórias deste panteão e das aventuras dos mortais que se cruzam com eles foram imortalizadas em obras de autores da antiguidade clássica como Homero, Ovídio, Apolónio de Rodes, Hesíodo e aqui são trazidas para a cultura popular. Por isso, acho que este livro é adequado tanto aos que estão mais familiarizado com estas histórias e personagens, que gostam de olhar para estas narrativas através de outros olhos, bem como para aqueles que não as conhecem assim tão bem.

    Tomamos, então, contacto com alguns dos principais deuses gregos pela mão e pelos olhos de Circe, que nos conta a sua história, bem como com a história da sua família disfuncional, na primeira pessoa. Circe é filha de Helios, o deus solar, e uma ninfa, algo que faz dela uma divindade e imortal, mas sendo uma ninfa está no estrato mais baixo da divindade, por assim dizer. Ou seja, ela é desprezada por praticamente todos os que a rodeiam, inclusive os seus pais, irmãos e restantes deuses. No início da sua vida é bastante maltratada, ignorada e tudo isso vai, aos poucos, destruindo as ilusões e a ingenuidade de Circe, fazendo com que ela assuma, finalmente, o seu papel de feiticeira. No entanto, se há coisa que os deuses temem, são seres que conseguem fazer coisas que eles não conseguem e, por isso, Circe é condenada ao exílio.

    Circe torna-se, então, numa feiticeira com poder de direito próprio e que, numa ilha, vive sozinha o resto dos seus dias, uma vez que é considerada uma ameaça ao mundo dos deuses. Só que não. Parece que, ainda que tenha sido condenada ao exílio, de alguma forma ainda existem criaturas divinas e mortais que a encontram e que a envolvem, de alguma forma, nos seus desígnios. Os deuses são representados, aqui, como criaturas vaidosas, que só actuam quando há algo em troca, egoístas e que provam o seu nome e a sua fama através de actos cruéis, como a destruição de cidades, o início de guerras e o derramamento de sangue entre os mortais.

    No entanto, Circe contrasta com todo este mundo, revelando ser uma mulher extremamente sensível,  empática, com um poder imenso no que toca ao uso da magia, uma mulher forte que persevera apesar de todas as dificuldades e de tudo o que lhe acontece. Através dela temos considerações sobre a solidão, a maternidade, o amor e a independência feminina. Por isso, considero que este livro é mais do que somente umas histórias mitológicas recontadas pelo olhar de uma das suas protagonistas. É uma reflexão sobre estes temas, tendo como cenário a mitologia grega, mas que obriga a uma reflexão mais profunda sobre eles.

    Gostei muito deste livro por vários motivos. Pela temática da mitologia, da qual já conhecia bastantes episódios e, por isso, foi muito interessante ver como é que Miller inseria estes momentos na narrativa, encaixando-os sempre na vida de Circe. Depois, a autora escreve muito bem e a prosa adequa-se bastante à narrativa apresentada. Miller consegue tecer, tal como Circe no seu tear, uma história que já é familiar e dar-lhe o seu próprio cunho pessoal, adaptando-a para um público diferente do original. Este livro foi uma delícia de ler. Já não lia livros de fantasia há muito tempo e acho que voltei ao género em grande, apesar de a autora considerar que a sua obra se encaixa no género do realismo mitológico. Não posso deixar de recomendar e quero muito ler o seu outro livro, A Canção de Aquiles.

    Para os mais curiosos, se quiserem ler algumas destas histórias tal como foram contadas pelos autores gregos, aqui fica uma pequena lista de obras que podem ser interessantes:

    Odisseia e Ilíada, de Homero
    Teogonia, de Hesíodo
    Metamorfoses, de Ovídio
    As Argonáuticas, de Apolónio de Rodes

    5/6 - Muito Bom

    (Esta leitura conta para o desafio Mount TBR Reading Challenge 2020)

    _______________________________

    Detalhes

    Editora: Bloomsbury
    Páginas: 333
    Sinopse:
    "In the house of Helios, god of the sun and mightiest of the Titans, a daughter is born. But Circe has neither the look nor the voice of divinity, and is scorned and rejected by her kin. Increasingly isolated, she turns to mortals for companionship, leading her to discover a power forbidden to the gods: witchcraft.

    When love drives Circe to cast a dark spell, wrathful Zeus banishes her to the remote island of Aiaia. There she learns to harness her occult craft, drawing strength from nature. But she will not always be alone; many are destined to pass through Circe's place of exile, entwining their fates with hers. The messenger god, Hermes. The craftsman, Daedalus. A ship bearing a golden fleece. And wily Odysseus, on his epic voyage home.

    There is danger for a solitary woman in this world, and Circe's independence draws the wrath of men and gods alike. To protect what she holds dear, Circe must decide whether she belongs with the deities she is born from, or the mortals she has come to love."
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